A depressão é um tema atual. Todos nós, num dia ou noutro, já passámos por momentos maus na vida e que prolongam o nosso estado afetivo negativo por algum tempo. Quando nos sentimos assim, consideramos estar deprimidos. Talvez isto aconteça pelo facto de a palavra depressão nos dias de hoje começar a ser mais banal entre as pessoas, que, por alguma tristeza mais prolongada, denominam esse facto de depressão, dizendo estás deprimido, trata-te.
A depressão é uma experiência muito comum. Qualquer pessoa passa por fases em que se sente farta, triste ou profundamente infeliz e, apesar de habitualmente a razão para tais sentimentos ser óbvia - uma desilusão, uma frustração, a perda de algo ou alguém importante - nem sempre isso sucede; por vezes, estamos simplesmente de "mau humor", "acordámos maldispostos" ou algo do género, mas não sabemos de facto o que se passa connosco. Por vezes, podemos não estar cientes do ponto a que estamos deprimidos, principalmente se a depressão se tiver instalado gradualmente; podemos também culpabilizarmo-nos por sermos "preguiçosos" ou "fracos"; podemos ainda tentar lidar sozinhos com essas angústias, trabalhando demais, ficando exaustos e stressados e, dessa forma, evitando pensar naquilo que nos preocupa. Por vezes, a depressão aparece "mascarada" sob a forma de sintomatologia física, como seja dores de cabeça ou insónias, ao invés de surgir a tristeza e a infelicidade.
A depressão pode ser tão grave que não nos parece sequer haver qualquer razão para viver e nestes casos a pessoa percebe e sente que não está a conseguir lidar com as coisas como habitualmente. Algumas pessoas pensam que já não há nada a fazer, mas o facto é que a depressão é uma doença e é absolutamente necessário tratá-la. Não se trata de um sinal de fraqueza - mesmo as personalidades mais fortes passam por ela.
Ao contrário dos pequenos episódios depressivos que todos nós experienciamos, com a perturbação depressiva propriamente dita as sensações de tristeza, desmotivação, apatia e solidão são mais intensas e subsistem durante muito mais tempo - meses, em vez de dias ou semanas.
A depressão é uma doença que está presente na Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde. Para ser considerada uma perturbação e não uma reação normal, estes sintomas devem persistir durante pelo menos duas semanas e ser, geralmente, acompanhados por:
- sentimentos de tristeza que subsistem ao longo do tempo
- perca de interesse pela vida
- tornar-se incapaz de obter prazer seja com que atividade for
- sentir-se nervoso e agitado
- alterações no apetite e nos padrões de sono
- fadiga, sentir-se exausto sem razão aparente
- perder peso e apetite (algumas pessoas ganham peso)
- dificuldades de concentração
- dificuldade em tomar decisões
- perda do apego pela vida, ideias de morte ou pensamentos suicidas
- desvalorização, sentir-se um incapaz, inadequado
- desespero
- evitar as relações sexuais, perder o interesse por essa atividade
- perder a autoconfiança
- evitar os outros
- irritabilidade
- sentir-se pior numa dada altura do dia, habitualmente de manhã
- pensar na morte e no suicídio
As pessoas deprimidas têm frequentemente pensamentos negativos sobre si mesmas, sobre a sua vida e sobre o seu futuro (e.g., “sou um/a inútil”; “nada vai correr bem na minha vida”; “nunca vou ser feliz”). Experienciam frequentemente sentimentos negativos (e.g., tristeza; desânimo; desesperança) e apresentam frequentemente sintomas físicos debilitantes (e.g., dores de cabeça e/ou musculares; cansaço e/ou falta de energia; baixa capacidade de concentração). Sofrem frequentemente alterações importantes no seu comportamento (e.g., desinvestimento e/ou evitamento das atividades; sensação de que tudo requer um esforço incomportável para ser concretizado; isolamento; agitação ou lentificação).
O desenvolvimento da depressão não se deve a uma causa específica, mas a um conjunto de fatores, nomeadamente biológicos (e.g., traços genéticos), psicológicos (e.g., traços específicos de personalidade), experiências de vida difíceis (e.g., perda de emprego, divórcio, dificuldades financeiras, morte de um ente querido), problemas interpessoais (e.g., conflitos em casa ou no emprego, falta de apoio familiar e de amigos) e, ainda, condições médicas (e.g., doenças crónicas, mudanças hormonais, alguns medicamentos para o sistema nervoso). A interação destes fatores ou o aparecimento de um deles pode contribuir para o desenvolvimento da depressão.
Quando os sentimentos depressivos são mais fortes do que o habitual e não parecem melhorar, devemos procurar ajuda. O facto é que uma depressão pode afetar o nosso desempenho académico e profissional, os nossos interesses e mesmo os nossos sentimentos em relação à família e amigos. Se damos por nós a pensar que a vida não tem sentido ou que os outros estariam melhor se não existíssemos, devemos procurar ajuda imediata. Pode ser suficiente falar com um amigo ou familiar, "desabafar" com ele mas, se assim não for, devemos procurar ajuda especializada de um psicólogo ou de um psiquiatra. Algumas estratégias poderão também ser úteis, tais como:
- Não "engolir" os problemas - tentar partilhá-los com alguém
- Fazer alguma coisa para que não se pense constantemente naquilo que nos preocupa - prática de desporto, passeios a pé e atividades domésticas
- Manter uma alimentação saudável
- Resistir à tentação de "afogar" as mágoas (e.g., ingestão de bebidas alcoólicas)
- Não pensar demasiado nas dificuldades do sono - mesmo que não estejamos a dormir, poderá ser importante ouvir rádio ou ver televisão enquanto relaxamos o corpo
- Não negarmos que estamos deprimidos
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a depressão é o problema de saúde mais prevalente na União Europeia, afetando cerca de 50 milhões de pessoas. As estatísticas revelam ainda que 11% da população irá sofrer um episódio depressivo ao longo da vida e que essa é a segunda maior causa de incapacidade. Portugal ocupa a 5ª posição entre os países com mais casos – cerca de 8% dos portugueses estão diagnosticados com essa perturbação.
Proposta de filmes: Helen (2009) e Cake (2014)
Proposta de livros: Durante a queda aprendi a voar de Raul Minh'alma (2020) e Reiniciar de Katherine M (2021)
Bibliografia
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Castro, A. (2021). Sociedade . Obtido de JUP: https://www.juponline.pt/sociedade/artigo/39353/portugal-no-top-3-dos-paises-europeus-com-maior-incidencia-de-depressao-e-ansiedade.aspx
ORDEM DOS PSICÓLOGOS PORTUGUESES. (s.d.). PROGRAMA NACIONAL DE PREVENÇÃO DA DEPRESSÃO - RESUMO.
Ordem dos Psicólogos Portugueses. (s.d.). FACT SHEET sobre Depressão.
Ordem dos Psicólogos Portugueses. (s.d.). Folhetos Anti-Estigma. Lisboa.
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Sousa, M., Silva, S., Santos, A., Meira, L., Couto, A. B., Costa, L., . . . Cuijpers, P. (2004). Manual de Autoajuda para a Depressão: Como gerir e superar a depressão passo a passo. Trabalho original de Pim Cuijpers. Ordem dos Psicólogos Portugueses.

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