segunda-feira, 20 de julho de 2026

Vamos falar de Literacia em Saúde

 

Todos nós precisamos de encontrar, compreender e usar informação e serviços de saúde em vários momentos do percurso de vida, pelo que a Literacia em Saúde é uma prioridade. Elevados níveis de Literacia em Saúde permitem à pessoa ter capacidade para tomar decisões de saúde fundamentadas no dia a dia, em casa, na comunidade, no local de trabalho, na navegação no sistema de saúde e no contexto político, possibilitando o aumento do controlo sobre a sua saúde.
Baixos níveis de Literacia em Saúde estão relacionados com um maior número de internamentos e com uma utilização mais frequente dos serviços de urgência e, também, com uma menor prevalência de atitudes individuais e familiares preventivas no campo da saúde, levando a uma diminuição da qualidade de vida. Além disso, atualmente existe forte evidência de que a Literacia em Saúde contribui não só para promoção da saúde e prevenção da doença, mas também para a eficácia e eficiência dos serviços de saúde, sendo, portanto, uma ferramenta essencial para a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Consequentemente, a Literacia em Saúde é uma das principais prioridades da Direção-Geral da Saúde.
A saúde é um recurso para as pessoas e para a sociedade e é uma responsabilidade partilhada entre todos, pelo que é de extrema importância unir esforços e potenciar, em todas as oportunidades, a promoção da Literacia em Saúde, de forma a capacitar e ativar a população contribuindo para a saúde, para o bem-estar e para a redução de desigualdades em saúde.
Em Portugal, os níveis de Literacia em Saúde encontram-se abaixo da média europeia. A baixa Literacia em Saúde que se verifica na população portuguesa acarreta custos individuais e sociais e apresenta-se, normalmente, associada a baixos níveis educacionais e de acesso a informação o que provoca uma consequente diminuição da autonomia da pessoa.
O termo “Literacia em Saúde” foi utilizado no contexto da educação para a saúde pela primeira vez em 1974, com o estabelecimento dos padrões mínimos de Literacia em Saúde no contexto escolar. A evolução do constructo tem vindo a conquistar, progressivamente, importância e impacto significativos nas abordagens em saúde.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS, 1998), a Literacia em Saúde representa as competências cognitivas e sociais que determinam a motivação e a capacidade de os indivíduos acederem, compreenderem e utilizarem a informação de saúde de modo a contribuírem para a promoção e manutenção da sua saúde. Implica a aquisição de um nível de conhecimento, competências pessoais e confiança para agir, de modo a melhorar a saúde individual e comunitária, através da alteração de comportamentos, estilos e condições de vida, representando um fator crítico para o empoderamento e capacitação da população, naquilo que à saúde diz respeito.
No âmbito da saúde, a Literacia em Saúde Digital permite à pessoa procurar, encontrar, compreender e avaliar informações de saúde a partir de fontes eletrónicas e aplicar os conhecimentos adquiridos para responder a questões e resolver problemas relacionados com saúde.
É muito importante ter em consideração que nem toda a população está familiarizada com o mundo digital. Embora muitas pessoas usem meios digitais para gerir a sua saúde, há também grupos de pessoas idosas, vulneráveis ou de origens socioeconómicas desfavorecidas que não usam esses meios por terem acesso limitado aos mesmos, ou por terem baixos níveis de Literacia em Saúde Digital.
Construir competências e capacidades de Literacia em Saúde é um processo que se desenvolve ao longo da vida. Mesmo pessoas com altos níveis educacionais podem ter dificuldade em lidar com o Sistema de Saúde, nomeadamente quando uma condição de saúde os pode tornar mais vulneráveis.
A Literacia em Saúde permite otimizar a procura de soluções para os problemas de saúde. Promove os estilos de vida saudável em geral, bem como comportamentos preventivos e protetores da saúde em particular, pelo que a sua promoção deve ser fomentada.
A Literacia em Saúde deve ser promovida, preferencialmente, nos diferentes contextos do quotidiano das pessoas. É cada vez mais importante que sejam disponibilizadas ferramentas que facilitem a interpretação da informação que lhes é disponibilizada e que, consequentemente, possam tomar decisões e opções de forma consciente.
Pessoas motivadas e confiantes na sua capacidade de usar os seus conhecimentos e habilidades são mais propensas a serem participantes ativas na manutenção e na melhoria da sua saúde.
O estado de saúde é explicado não apenas pelo bem-estar físico, como também pela perceção, boa ou má, que a pessoa tem da sua saúde física, mental e social.
Para concluir, deixo-vos alguns conceitos importantes acerca do sistema de saúde:
  • CUIDADOS DE SAÚDE PRIMÁRIOS (CSP): São o primeiro nível de contacto entre os profissionais de saúde e a população. São constituídos por unidades de saúde muito próximas da população permitindo a atribuição de uma equipa de saúde familiar para a prestação de cuidados de saúde ao longo do ciclo de vida da pessoa e da sua família.
  • CUIDADOS DE SAÚDE HOSPITALARES (CSH): São estabelecimentos de saúde, com diferentes níveis de diferenciação, constituídos por meios tecnológicos que não existem nos CSP. Tem como objetivo principal a prestação de cuidados de saúde durante 24 horas por dia.
  • SNS 24: O Centro de Contacto do Serviço Nacional de Saúde - SNS 24, caracteriza-se por: Disponibilizar um conjunto de informações e serviços que facilitem o acesso e simplifiquem a utilização do SNS e orientar o cidadão para os serviços de saúde mais adequados às suas necessidades, contribuindo para a diminuição de situações de congestionamento dos serviços de saúde, como os serviços de urgências ou mesmo os serviços administrativos.
  • FARMÁCIAS COMUNITÁRIAS: No âmbito da farmácia comunitária, os farmacêuticos garantem que as pessoas estão totalmente informadas sobre os seus regimes terapêuticos, de forma a minimizar os erros e a hesitação na toma da medicação; A confiança e a proximidade entre o farmacêutico e a população contribuem para a constante promoção da Literacia em Saúde. Os farmacêuticos comunitários estão empenhados em disponibilizar cada vez mais serviços essenciais à saúde do utente, quer na vertente preventiva quer na vertente terapêutica.
Proposta de filmes: Manchester By the Sea (2017) e First Reformed (2017)
Proposta de livros: Literacia em Saúde e Autocuidados - Evidências que projetam a prática clínica de Ana Galvão (2021); Decidir em conjunto sobre a nossa saúde e Doentes em segurança (Serviço Nacional de Saúde)

Bibliografia
Direção de Serviços de Prevenção da Doença e Promoção da Saúde. (2018). PLANO DE AÇÃO PARA A LITERACIA EM SAÚDE 2019-2021. Lisboa, Portugal: Direção-Geral da Saúde.
Direção-Geral da Saúde. (2019). Manual de Boas Práticas Literacia em Saúde: Capacitação dos Profissionais de Saúde. Lisboa .
Ordem dos Psicólogos dos Portugueses. (2020). Literacia em saúde, O Papel do Psicólogo – Manual de Apoio Pedagógico. Lisboa.
Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2015). Literacia em Saúde. Lisboa.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Vamos falar de Cyberbullying


A expressão “cyberbullying” carece de tradução formal em português. É uma palavra composta, sendo o “cyber” relativo ao uso das novas tecnologias de comunicação (correio eletrónico, telemóveis, etc.) e o “bullying” relativo ao fenómeno dos maus-tratos. 
O cyberbullying mais não é do que uma evolução do bullying dito tradicional, desenvolvido através das tecnologias digitais, cuja utilização é cada vez mais frequente na nossa sociedade. O cyberbullying consiste em humilhar, excluir ou até agredir alguém, de forma repetitiva e sistemática, através de ações virtuais, mas com consequências bem reais. Este tipo de comportamentos ganha uma dimensão, visibilidade e gravidade nunca antes vistas. São várias as formas de comunicação, com recurso à Internet, que possibilitam este tipo de agressão, podendo recorrer a uma variedade de conteúdos com essa finalidade como, por exemplo, conteúdos de fotografia, de vídeo, de áudio ou de texto. 
Cyberbullying é o termo usado para descrever atos intencionais e repetidos de ameaça e ofensa, através da utilização de tecnologia, em particular dos telemóveis e da Internet. Através do correio eletrónico, dos sites, ou dos chats tem-se tornado possível levar a cabo ameaças e chantagens a cobro do anonimato. É uma forma de extorsão menos frequente, mas que tem vindo gradualmente a desenvolver-se, configurada em situações como envio de mensagens por telemóvel (SMS) persecutórias ou o envio de fotografias ofensivas. Exemplo disso mesmo é o envio de mensagens por telemóvel ameaçadoras ou a colocação de fotografias na Internet. 
Um efeito do anonimato que a Internet permite, é o facto de frequentes vezes as vítimas se converterem, também elas, em agressores, servindo-se da rede virtual para se vingarem dos seus agressores. Se “na vida real”, a hostilização é exercida pelo mais forte, na Internet pode ser exercida por qualquer um. Embora, na maioria das vezes estes meios tenham uma aplicação e utilidade positiva, mesmo do ponto de vista pedagógico, têm sido inúmeros os casos em que o utilizador, por falta de cuidado ou inexperiência, tem sido seriamente lesado. 
Os métodos usados por um cyberbully são os mais variados. O que motiva os rufiões cibernéticos são as mais variadas razões, que vão desde o gozo de ver o outro a ser humilhado e atormentado, à vingança por também terem sido já alvos de cyberbullying. Assim, existem diferentes tipos de ciberbullying, são eles:
  • Ameaças/perseguições - enviar mensagens ameaçadoras ou de ódio aos seus alvos. Podem-se fazer passar por outras pessoas, adotando “usernames” (nomes de utilizador) parecidos com os delas, para envolver outros inocentes no processo;
  • Roubo de identidade ou de palavras-passe – para entrar nas variadas contas da vítima, causando os mais variados distúrbios;
  • Criação de páginas de perfil falsas - na qual insere todo o tipo de informações maldosas, trocistas ou falsas, além de poder conter dados reais, como a morada da vítima;
  • O uso dos blogues;
  • Envio de imagens pelos mais variados meios;
  • Sítios de votação - Existindo variados sítios de Internet onde se pode votar acerca dos mais variados assuntos, é possível a um jovem criar o tema de “A Mais Impopular”, “O Mais Gordo”, etc., visando quem deseja incomodar;
  • Envio de vírus;
  • Inscrições em nome da vítima. 
De forma a prestarmos atenção à presença ou não de cyberbullying, listo alguns sinais nas crianças a que devemos estar atentos:
  • Mostrar-se aborrecido ou perturbado durante ou após a utilização do telemóvel/computador/tablet;
  • Mostrar-se triste, ansioso, preocupado ou alheado da realidade;
  • Fazer da sua vida digital um segredo ou tentar protegê-la a todo o custo;
  • Minimizar “janelas” na presença do adulto, pedir ajuda para eliminar contas ou bloquear amigos;
  • Isolar-se e evitar a família, os amigos ou as atividades habituais;
  • Recusar assistir às aulas à distância ou participar em situações de grupo;
  • Diminuição do rendimento escolar ou aparente aumento do número de horas de estudo, sem grandes melhorias de resultados;
  • Mostrar-se zangado e descontrolado;
  • Mudanças de humor, comportamento, sono ou apetite, sem justificação aparente;
  • Parar de usar o telemóvel/computador/tablet;
  • Mostrar-se nervoso e ansioso sempre que surge uma nova mensagem;
  • Evitar discussões sobre o uso do telemóvel/computador/tablet. 
De seguida, enumero algumas boas práticas no sentido de prevenir o ciberbullying:
  • Utilização de pseudónimos – pensar duas vezes antes de se usar o nome verdadeiro num perfil e, pelo menos, nunca dar o nome completo;
  • Não disponibilizar informação pessoal;
  • Utilizar um nome de utilizador e uma palavra-passe diferente de qualquer outra só para aceder à rede social;
  • Pensar bem antes de decidir pôr uma fotografia pessoal no perfil;
  • Informações detalhadas sobre o quotidiano, pormenores da vida familiar ou segredos entre amigos, não devem ser partilhados online;
  • Relembrar que uma vez publicada informação na Internet, não é possível retirá-la.
  • Respeitar a privacidade dos outros. Não se deve nunca revelar informação sobre outras pessoas;
  • A publicação ilegal de imagens é crime;
  • Restringir as pessoas que podem ter acesso ao perfil;
  • Escolher criteriosamente quem se adiciona como amigo;
  • Ter atenção quando um “amigo” virtual quer um encontro;
  • Como agir em caso de ameaças: Reportar a situação a um adulto da sua confiança e insistir até que o adulto tome providências; Não abrir ou ler mensagens provenientes de ciberbullies, mas não as apagar, pois podem vir a ser necessárias para tomar medidas; Expor a situação à escola (professores, diretor de turma, conselho executivo) se o caso estiver relacionado com a escola; Nunca concordar encontrar-se com a pessoa que apenas conheceu online; Se for fisicamente ameaçado, pedir aos pais que informem a polícia; 
  • Promover a resiliência. Ensine a criança ou jovem a lidar com situações problemáticas, a resistir à pressão, a superar obstáculos e a recuperar de momentos menos positivos.
  • Promover diálogos francos e frequentes. como as tecnologias são usadas, bem como sobre os efeitos positivos e negativos da sua utilização;
  • Reforçar a confiança para que a criança ou jovem se sinta à vontade para recorrer a si, se pressentir ou até se já existir algum problema;
  • Estabelecer regras e horários de utilização das tecnologias de comunicação;
  • Promover a utilização segura dos dispositivos;
  • Promover a utilização segura da Internet. É importante saber o que se diz e escreve online, para prevenir situações menos positivas;
  • Promover a partilha consciente de conteúdos;
  • Respeitar a privacidade e reforçar a confiança. 
Proposta de filmes: CYBERBULLY (2011) e Social Nightmare (2013)
Proposta de livros: Cyberbullying: Um guia para pais e educadores de Sónia Seixas, Luís Fernandes e Tito de Morais (2016)

Bibliografia
Ordem dos Psicólogos. (2022). COVID-19: RECOMENDAÇÕES PARA PAIS, CUIDADORES E PROFESSORES - CYBERBULLYING E SEGURANÇA ONLINE. Lisboa. Obtido de https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/covid_19_cyberbullying_pais.pdf
REPÚBLICA PORTUGUESA . (28 de setembro de 2022). Área Governativa da Educação. Obtido de Sem Bullying sem Violencia: https://www.sembullyingsemviolencia.edu.gov.pt/
Tarouca, A., & Pires, P. (dezembro de 2011). Bullying NÃO: RECURSOS DIGITAIS. Lisboa: Instituto de Apoio à Criança

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Vamos falar de Inteligência Emocional

 


O termo “Inteligência Emocional” (IE) foi formalmente definido, pela primeira vez, na década de 90 por Salovey e Mayer (1990). Em 1990, converteram o nome de inteligência interpessoal e intrapessoal em Inteligência Emocional, e definiram o conceito como “um tipo de inteligência social, que envolve a capacidade de monitorizar os sentimentos e emoções próprias e de outros, com o objetivo de os distinguir, e de usar essa informação para orientar o pensamento e a ação”.
As suas raízes provêm do conceito de “inteligência social” identificado por Thorndike em 1920, definido como a “capacidade de compreender e gerir homens e mulheres, rapazes e raparigas – atuando sabiamente nas relações humanas”. Este conceito representou uma influência marcada para o desenvolvimento do construto de IE, permitindo estabelecer uma ligação entre emoção e inteligência.
Em 1995, Daniel Goleman publicou um manual intitulado “Inteligência Emocional”, onde apresenta um modelo explicativo do funcionamento da inteligência emocional e das suas implicações no dia a dia. Assim, e com base neste modelo, pode-se dizer que a inteligência emocional é a capacidade de compreender as nossas emoções e as emoções dos outros e usar este conhecimento em favor do sucesso próprio e relacional.
Diversos autores destacam a influência da inteligência interpessoal e intrapessoal para a construção do conceito de IE, sendo que Gardner definiu a inteligência intrapessoal como a capacidade de autoavaliação e de conhecimento dos próprios sentimentos; e a inteligência interpessoal como envolvendo a capacidade de compreender os estados de espírito e os desejos dos outros e de agir com base nesses conhecimentos.
Em 1997, Mayer e Salovey desenvolveram o seu próprio modelo e reformulam o conceito de IE, sendo este constituído por quatro dimensões:
  • Capacidade de perceção, avaliação e expressão de emoções;
  • Capacidade de aceder e gerar emoções que facilitem as atividades cognitivas;
  • Capacidade para compreender e analisar informação emocional e para usar o conhecimento emocional;
  • E capacidade de gerir emoções para promover o desenvolvimento e o bem-estar emocional e intelectual.
Também em 1997, Bar-On apresenta um modelo de IE que se compõe em cinco dimensões (Ceitil, 2007):
  • Intrapessoal (autoconsciência emocional, assertividade, autoestima, autorrealização, independência);
  • Interpessoal (relações interpessoais, responsabilidade social, empatia);
  • Adaptabilidade (resolução de problemas, realismo, flexibilidade);
  • Gestão do stresse (tolerância ao stresse, controlo da impulsividade);
  • Humor em geral (felicidade, otimismo)
Os autores Cunha, Cabral-Cardoso, Cunha e Rego (2007) anunciam de um modo simples que os indivíduos emocionalmente inteligentes são os que usam a razão para compreender as emoções (as próprias e as dos outros) e lidar com elas, e que recorrem às emoções para interpretar a envolvente e tomar decisões mais racionais. Nesta lógica, a emoção torna o pensamento mais inteligente, e a inteligência permite pensar e usar de modo mais apurado as emoções. Por conseguinte, a IE representa a capacidade para conciliar emoções e razão: usar as emoções para facilitar a razão, e raciocinar inteligentemente acerca das emoções.
No que respeita à aprendizagem da IE, tal como refere Goleman (2000), ao contrário do nosso QI, que pouco muda após a adolescência, a IE é em grande medida assimilada e continua a desenvolver-se ao longo da vida, à medida que aprendemos com as nossas experiências. Em 1998, Goleman defende que “a pesquisa e a prática demonstram claramente que a inteligência emocional pode ser aprendida”.
Agregando os vários autores e definições, por inteligência emocional entende-se o conjunto de mecanismos mentais necessários à resolução de problemas e à gestão de comportamentos, isto é, a habilidade que o indivíduo tem para identificar, utilizar, compreender e regular as emoções em si próprio e nos outros.
Relativamente aos fatores que contribuem para a inteligência emocional, saliento:
  • Autoconhecimento;
  • Autoperceção;
  • Autoconfiança;
  • Autogerir;
  • Automotivação;
  • Empatia;
  • Habilidades sociais.
Para concluir este tema, importa realçar como podemos desenvolver a inteligência emocional. Mayer e Salovey recomendam que a inteligência emocional seja contemplada no ambiente familiar, na escola, nas organizações e em outros contextos, visando a resolução potencial de problemas. O seu modelo centra-se nas habilidades emocionais que podem ser desenvolvidas através da aprendizagem e da experiência quotidiana. Importa, no entanto, que se reconheça como indispensável o treino e a prática da inteligência emocional, com vista ao seu domínio. A inteligência emocional conquista-se através da educação e do desenvolvimento de competências emocionais que contribuem para um melhor bem-estar pessoal e social.
É fundamental, então, que a inteligência emocional seja posta em prática, através de programas sequenciais, que podem e devem iniciar-se, a nível educacional, na infância. Para isso, tal como na dinâmica educacional, a planificação estratégica de atividades requer que sejam delineados objetivos e escolhidos conteúdos, com vista a uma intervenção programada a implementar e avaliar.

Proposta de filmes: Looking for Eric (2009) e The King's Speech (2010)
Proposta de livros: Tu és aquilo que pensas de James Allen (2019) e Inteligência Emocional de David Walton (2022)

Bibliografia:
Costa, R. (2015). INTELIGÊNCIA EMOCIONAL . IV Jornadas Pedagógicas. Agrupamento de Escolas D. Manuel de Faria e Sousa.
CRIAP, I. (28 de abril de 2023). Obtido de https://www.institutocriap.com/blog/psicologia/o-conceito-e-as-teorias-de-inteligencia-emocional
Gaspar, A. C. (2021). Inteligência Emocional em crianças: Ferramentas Práticas. Leiria: ForYourMind, Lda. Torres, M. B. (2014). O impacto da Inteligência Emocional no resultado do trabalho - Estudo em dois contextos organizacionais. Dissertação submetida para satisfação parcial dos requisitos do grau de Mestre em Gestão de Recursos Humanos. Lisboa : Universidade Europeia.

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Vamos falar de Suicídio


Quando as pessoas vivem muitas perdas, se sentem um fracasso, sobrecarregadas por problemas pessoais ou familiares, ou mesmo sem saber bem por quê, podem ficar presas na sua dor e acreditar que não existem soluções para os seus problemas. Sentem-se impotentes para mudar a sua vida e a ideia de morrer, de suicídio, pode dar-lhes a ilusão de algum conforto e controlo sobre a situação.
Muitas pessoas experienciam vontade de se suicidar e pensamentos suicidas como parte de um problema de Saúde Psicológica ou quando experienciam problemas de saúde física graves e dolorosos. Algumas vezes o suicídio é planeado, mas outras vezes as tentativas de suicídio acontecem por impulso, num momento de desespero.
O suicídio tem sido tradicionalmente um tema tabu na sociedade ocidental, o que levou a uma maior alienação geral. As pessoas que morreram por suicídio e as suas famílias e amig@s sofreram de grande discriminação – por um lado por se julgar o suicídio um pecado e por toda a culpa sentida e que pesava sobre os entes queridos. Ao falarmos sobre este assunto, afastando-o do tabu social, permitimos que as pessoas falem mais sobre os seus pensamentos de suicídio e se sintam mais à vontade para pedir ajuda. Além disso, a sociedade fica também mais preparada para identificar potenciais pessoas em risco. Desta forma, estamos tod@s a contribuir para a prevenção do suicídio.
Ter ideias de suicídio é muitas vezes visto como uma espécie de sentença que marca o indivíduo para sempre. Porém, a ideação suicida não é uma marca ou rótulo, é um sinal de que o indivíduo está a sofrer profundamente e deve procurar ajuda. Todas as ideias pré-concebidas que existem ao redor da temática do suicídio só contribuem para a desinformação e, consequentemente, para a construção do estigma que envolve o suicídio e as doenças mentais. Estas falsas informações podem impedir as pessoas de procurar a ajuda que precisam, colocando-se potencialmente em risco. Desmistificá-las contribui para uma sociedade mais informada, que percebe a importância de ajudar outros a procurarem ajuda e tratamento, que mostra aos indivíduos a importância de enfrentar os problemas de saúde mental.
O suicídio é um problema de Saúde Pública com enormes consequências emocionais, sociais e económicas. Não existe uma explicação simples para o facto de alguém escolher morrer por suicídio e raramente se deve a um único fator. O suicídio é um fenómeno transversal a toda a comunidade. Todos pensamos na morte, isso é natural, a morte faz parte da vivência do ser humano. Não é correto estabelecer relações diretas entre um suicídio e um determinado acontecimento de vida negativo (divorciar-se, ser despedid@, ser diagnosticad@ com uma doença grave, …). Este fenómeno não escolhe classes sociais, género, idade ou região geográfica. O suicídio afeta também a família, @s amig@s, @s profissionais de saúde e até mesmo desconhecid@s, provocando grande sofrimento psicológico, físico e social. O suicídio é a morte de alguém como resultado de um ato intencional para pôr termo à sua própria vida. Está muitas vezes associado à vontade de terminar com o sofrimento ou com a dor que a pessoa sente. Quando alguém põe termo à sua própria vida, dizemos que “morreu por suicídio”. Normalmente é repentino, violento e inesperado.
Podemos estar atentos a alguns sinais que podem indicar que alguém pensa suicidar-se, tais como:
  • Ameaçar direta (“vou matar-me”) ou indiretamente (“quem me dera adormecer e nunca mais acordar”) suicidar-se;
  • Planos e cartas de despedida (incluindo publicações ‘online’);
  • Falar sobre suicídio ou sobre a morte;
  • Escrever canções, poemas ou cartas sobre a morte;
  • Falar sobre “ir embora”, “não estar mais aqui”, “desaparecer”, “não vou ser um problema para vocês durante muito mais tempo”;
  • Referir-se a coisas de que não vai precisar ou dar objetos pessoais;
  • Falar sobre sentir-se desesperad@ ou culpad@;
  • Afastar-se de amig@s e familiares e perder o interesse em sair de casa;
  • Perder o interesse pelas atividades ou passatempos favoritos;
  • Ter dificuldade em concentrar-se e em pensar com clareza;
  • Perder interesse na escola ou atividades desportivas;
  • Irritabilidade, tristeza ou ansiedade;
  • Alterações nos hábitos alimentares e de sono;
  • Manifestar comportamentos autodestrutivos (beber álcool em excesso, consumir drogas, automutilar-se…);
  • Manifestar-se subitamente alegre após um período de tristeza.
Tal como noutras problemáticas de saúde mental, no suicídio existe um conjunto de fatores que podem funcionar como fatores de risco e proteção. Como fatores de risco temos:
  • Ser homem;
  • Ter mais de 45 anos;
  • Ter pensamentos ou planos de suicídio;
  • Ter acesso facilitado a meios para se magoar;
  • Já ter tentado o suicídio;
  • Conhecer alguém que se tenha suicidado;
  • Estar isolad@/não ter uma rede de suporte;
  • Negligência e abandono familiar;
  • Violência doméstica;
  • Exposição a ambientes de stresse crónico;
  • Abuso sexual;
  • História familiar de suicídio;
  • Problemas de Saúde Psicológica (como a depressão ou a ansiedade);
  • Doenças Mentais - Perturbação bipolar, esquizofrenia e as perturbações de personalidade;
  • Acontecimento traumático/Perda recente marcante (morte, divórcio, perda de emprego, término de relação romântica);
  • Abuso de substâncias;
  • Bullying ou cyberbullying; sentimentos de desespero e desesperança; baixa auto-estima;
  • Grande parte das pessoas vão a uma consulta médica nas semanas ou meses que antecedem tentativa de suicídio;
  • Ser impulsiv@/ter tendência para agir sem pensar;
  • Ser viúv@, divorciad@ ou solteir@;
  • Existência de uma doença grave, incapacitante ou dor crónica;
  • Não ter esperança no futuro;
  • Ter familiares com doença mental;
  • Situações de vulnerabilidade (por exemplo, pobreza, desemprego, perdas financeiras, guerra, desastres naturais, discriminação exclusão social e conflitos em torno da identidade sexual).
  • Falta de apoio social e sentimentos de solidão.
  • Crença de que o suicídio é uma solução “nobre” para um dilema pessoal ou uma “resposta” para problemas graves.
  • Exposição ao suicídio (na vida real ou através dos ‘media’ e da ‘internet’, que podem conduzir a comportamentos de imitação, sobretudo se forem divulgados suicídios de figuras públicas).
Como fatores de proteção:
  • Envolvimento em atividades positivas;
  • Falar sobre as suas preocupações (a pessoa pode sentir-se menos sozinha e assoberbada pelos seus pensamentos), perguntando diretamente sobre automutilação e pensamentos suicidas;
  • Rede de apoio social e conexões fortes de familiares, amig@s, colegas de trabalho e outras pessoas significativas;
  • Ter sentido de responsabilidade pela família;
  • Competências socioemocionais de resolução de problemas, resolução de conflitos e de gestão de dificuldades de forma adaptativa à mudança;
  • Ter autoestima, planos para o futuro e satisfação com a vida;
  • Ter crenças religiosas, culturais ou morais que desencorajam o suicídio;
  • Ter acesso a serviços de saúde;
  • Acesso a cuidados de Saúde Psicológica.
  • Restrição de acesso a meios letais que permitam o suicídio;
  • Procurar ajuda.
Como conclusão, quero salientar que devemos estar atent@s e reconhecer os sinais de alarme de suicídio; levar a sério os pedidos de ajuda; ouvir atentamente e não fazer juízos de valor; perguntar diretamente sobre pensamentos de suicídio e encorajar a procura de ajuda profissional.
O suicídio é uma problemática séria. Uma pessoa suicida-se a cada 40 segundos em todo o mundo, com quase 800.000 mortes em todo o mundo, sendo esta a segunda causa de morte mais frequente entre os jovens dos 15 aos 29 anos. Em Portugal, cerca de três pessoas morrem por suicídio a cada dia.

Proposta de filmes: En Man Som Heter Ove (2015); Canção da Volta (2016) e A Man Called Otto (2023)
Proposta de livros: As Virgens Suicidas de Jeffrey Eugenides (1993) e As Vantagens de Ser Invisível de Stephen Chbosky (2007)

Bibliografia
ESCOLA SAUDÁVELMENTE. (03 de outubro de 2022). Suicídio. Obtido de https://escolasaudavelmente.pt/professores/problemas-de-saude-psicologica/suicidio
Ordem dos Psicólogos. (2021). Vamos falar sobre Suicídio? Lisboa.
Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2018). Suicídio e Ideação Suicida em Estudantes Universitários. Lisboa.
Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2022). Prevenir o Suicídio – O Papel dos Psicólogos e Psicólogas. Lisboa.
PIRES, A. M., GASPAR, J., BARBOSA, P., & SILVA, S. F. (2021). Prevenção do Suicídio — Manual para a Comunidade. Obtido de www.prevenirsuicidio.pt
Serviço Nacional de Saúde. (2022). Prevenção do Suicídio. Obtido de https://prevenirsuicidio.pt/c/mitos/
World Health Organization. (2021). Suicide worldwide in 2019: Global Health Estimates. Geneva

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Vamos falar de Violência Doméstica

 


Ao longo dos tempos, crianças, mulheres, homens e idosos, têm sido alvo das mais diversas formas de violência na família.
Legitimada ora por dogmas religiosos e políticos, ora pela ideologia patriarcal, a violência doméstica é um fenómeno de longa data, que faz parte integrante da história da família das sociedades ocidentais e de muitas outras do globo.
A Organização das Nações Unidas definiu, em 2002, a Violência Doméstica como sendo a “violência que ocorre na esfera da vida privada, geralmente entre indivíduos relacionados por consanguinidade ou por intimidade” podendo a mesma “assumir diferentes tipos de violência, incluindo a física, a psicológica e a sexual”.
À luz do atual código Penal (com a entrada em vigor da Lei nº 59/2007, de 4 de setembro) a violência doméstica constitui um crime (tipificado no artigo 152.º) e, mais do que isso, um crime público — o que significa que, mesmo que a vítima informe que não deseja procedimento criminal (o que é recorrente), o Ministério Público é obrigado legalmente a prosseguir com o inquérito.
A violência doméstica funciona como um sistema circular — o chamado Ciclo da Violência Doméstica — que apresenta, regra geral, três fases:
  1. Aumento de tensão: as tensões acumuladas no quotidiano, as injúrias e as ameaças tecidas pelo agressor, criam, na vítima, uma sensação de perigo iminente.
  2. Ataque violento: o agressor maltrata física e psicologicamente a vítima;
  3. Lua-de-mel: o agressor envolve agora a vítima de carinho e atenções, desculpando-se pelas agressões e prometendo mudar (nunca mais voltará a exercer violência).
Este ciclo caracteriza-se pela sua continuidade no tempo, isto é, pela sua repetição sucessiva ao longo de meses ou anos, podendo ser cada vez menores as fases da tensão e de apaziguamento e cada vez mais intensa a fase do ataque violento.
No que concerne às vítimas, não existe um motivo único para a resistência ao abandono de um relacionamento violento. É frequentemente uma cadeia de emoções e crenças que estão na base da manutenção destas relações. A manipulação emocional tecida pelo agressor, culpabilizando constantemente a vítima pelas agressões, e subjugando-a a uma grande dependência afetiva, económica e falta de uma rede de apoio familiar e/ou social colocam-na num labirinto sem saída.
São considerados fatores contribuintes para a violência doméstica: as características individuais da vítima, características do meio familiar e socioculturais, o isolamento (geográfico, físico, afetivo e social), a fragmentação (consiste em considerar somente uma parte menor do problema, que tem a ver com o rótulo conferido à pessoa em concreto), o poder e o domínio ou a influência moral, tendências para a violência baseadas nas crenças e atitudes, situações de ‘stress’ (desemprego; problemas financeiros; gravidez; mudanças de papel — tais como início da frequência de um curso ou novo emprego do outro), frustração, alcoolismo ou toxicodependência, vivências infantis de agressão ou de violência parental, personalidade sádica e perturbações mentais ou físicas.
  • No que diz respeito ao impacto/consequências da violência doméstica saliento as seguintes:
  • Danos físicos, corporais e cerebrais, por vezes irreversíveis;
  • Alterações dos padrões de sono e perturbações alimentares;
  • Alterações da imagem corporal e disfunções sexuais;
  • Distúrbios cognitivos e de memória;
  • Distúrbios de ansiedade, hipervigilância, medos, fobias, ataques de pânico;
  • Sentimentos de medo, vergonha, culpa;
  • Níveis reduzidos de autoestima e um autoconceito negativo;
  • Vulnerabilidade ou dependência emocional, passividade, “desânimo aprendido”;
  • Isolamento social ou evitamento (resultantes, frequentemente, dos sentimentos de vergonha, autoculpabilização, desvalorização pessoal, falta de confiança que as vítimas sentem);
  • Comportamentos depressivos, por vezes com tentativa de suicídio ou suicídio consumado. Muitas vítimas apresentam um quadro de Perturbação Pós-Stress Traumático.
A violência doméstica é um problema complexo que requer a coordenação e conjugação de esforços entre pessoas de vários sectores profissionais e a comunidade.
A abordagem interdisciplinar envolve profissionais de várias formações na solução de problemas e no desenvolvimento de respostas. Essencialmente, inclui quase todos os meios — formais e informais — para o trabalho conjunto no desenvolvimento de respostas.
Para concluir, reforço que a violência doméstica é um problema sério, perante o qual não devemos ser indiferentes. A violência doméstica continuou a ser o crime mais praticado em Portugal em 2023. Deste modo, realço que, hoje em dia, existem vários serviços vocacionados para auxiliar as vítimas da violência doméstica:
  • APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima);
  • Associação de Mulheres Contra a Violência;
  • Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres;
  • UMAR (Movimento para a Emancipação Social das Mulheres Portuguesas);
  • Esquadras da PSP e GNR;
  • Os serviços do Ministério Público;
  • 112 para emergências com perigo eminente;
  • 144 — Linha Nacional de Emergência Social;
  • 800 202 148 — Serviço de Informação a Vítimas de Violência Doméstica;
  • 116 006 — Linha de Apoio à Vítima (APAV) (chamada gratuita).
Também os serviços de apoio à criança podem e devem ser contactados, na perspetiva de que uma criança que assiste a cenas de violência doméstica está, por esse facto, a ser ela própria vítima de maus-tratos psicológicos e encontra-se, portanto, em situação de risco. Assim podem ser alertadas a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo da área ou as linhas telefónicas de apoio a estes casos: “SOS Criança” do Instituto de Apoio à Criança ou a linha “Criança Maltratada” do Projeto de Apoio à Criança e à Família.

Proposta de filmes: Gone Girl (2014) e The Invisible Man (2020)
Proposta de livros: Violência Doméstica e Crimes Sexuais de Luis Maia (2012) e Violência Doméstica de Mauro Paulino (2016)

Bibliografia
Alves, C. (2005). VIOLÊNCIA DOMÉSTICA. Coimbra: Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.
APAV - Associação Portuguesa de Apoio à Vítima. (2010). Manual Alcipe - Para o Atendimento de Mulheres Vítimas de Violência (2ª Ed. Revista e Actualizada). Lisboa.
APAV. (2012). Violência Doméstica. Obtido de https://apav.pt/vd/index.php/features2
Dias, I. (2010). Violência doméstica e justiça. Sociologia: Revista do Departamento de Sociologia da FLUP, XX, pp. 245-262.
Direcção-Geral da Saúde. (2003). ESTRATÉGIAS DE COMBATE À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA - MANUAL DE RECURSOS. Lisboa.
GNR. (2021). Violência Doméstica. Obtido de https://www.gnr.pt/Cons_VilolenciaDomestica.aspx
Manita, C., Ribeiro, C., & Peixoto, C. (2009). Violência doméstica: Compreender para Intervir, Guia de Boas Práticas para Profissionais de Saúde. Lisboa.
ORDEM DOS PSICÓLOGOS PORTUGUESES. (2022). 2.1. Linhas de Orientação para a Prática Psicológica Profissional no âmbito da Avaliação e Intervenção Psicológica em Situações de Violência Doméstica. Lisboa.
https://www.portugal.gov.pt/pt/gc23/comunicacao/documento?i=dados-trimestrais-de-crimes-de-violencia-domestica-4-trimestre-de-2022
https://observador.pt/2023/01/30/queixas-de-violencia-domestica-e-homicidios-aumentaram-em-2022/
https://sicnoticias.pt/pais/2022-11-16-Violencia-domestica-28-mulheres-foram-mortas-desde-inicio-do-ano-22-num-contexto-de-relacao-4d958ab5 

terça-feira, 20 de maio de 2025

Vamos falar de Coparentalidade Positiva

 

O termo “coparentalidade” (coparenting) foi introduzido por Bohannan na década de 70, referindo-se a aspetos do divórcio que se relacionam com os filhos. Madden-Derdich e Leonard (2002) também definiram a coparentalidade como o nível de interação que os ex-cônjuges relatam terem um com o outro e como decidem questões da vida dos filhos. A coparentalidade trata-se, portanto, de um interjogo de papéis que se relaciona com o cuidado global da criança, incluindo valores, ideais, expectativas dirigidas à mesma, numa responsabilidade conjunta pelo bem-estar desta.
Entretanto, isto não quer dizer que a coparentalidade exista somente em situações de divórcio, pois está presente sempre que os pais, mesmo casados, negociam os seus papéis, responsabilidades e contribuições para com os seus filhos. A diferença é que, quando separados, os pais têm menos momentos e espaços em comum para efetivarem uma cooperação na educação dos filhos.
A coparentalidade não deve ser confundida com parentalidade ou conjugalidade. Este termo refere-se somente às questões relacionadas aos filhos, motivada pela preocupação com o bem-estar da criança, deve envolver apoio e comprometimento mútuo no exercício da parentalidade não englobando outras dimensões da vida do casal ou de outros subsistemas familiares. A relação coparental, portanto, não inclui aspetos românticos, sexuais, emocionais ou financeiros da relação do casal que não se relacionem à criação dos filhos. Mas sim a forma como os pais coordenam os seus papéis parentais, como se apoiam, ou não, e como gerem o conflito face à educação dos filhos, ou seja, é a responsabilidade conjunta pelo bem-estar de uma criança.
Um sistema coparental funcional (positivo) acontece quando os parceiros encontram meios de acomodar as suas preferências e os seus estilos individuais. A essência da coparentalidade envolve apoio mútuo e comprometimento em criar uma criança.
O elevado conflito após a separação/divórcio constitui um dos maiores desafios para a prática profissional no âmbito legal e da saúde mental. Ainda assim, na maioria das situações, os progenitores lidam com as mudanças associadas à rutura da relação conjugal, sem necessidade de apoio e com resultados que favorecem o ajustamento das crianças/jovens às alterações ocorridas. A relação entre os pais influencia a relação com os filhos, dado que a qualidade da relação coparental, enquanto esforço afetivo, moral e de responsabilidade conjunto em direção ao desenvolvimento da criança, contribui para um clima familiar de emoções positivas e influencia positivamente a saúde mental da criança e o seu ajustamento social.
Quando se fala na organização da vida das crianças após um divórcio, a principal preocupação passa por garantir que o superior interesse da criança seja o centro das decisões, evitando que qualquer um dos progenitores ou elementos da família alargada ponham em perigo a segurança, saúde, formação, educação ou salutar desenvolvimento do filho, ou dos filhos.
O principal desafio passa por distinguirem a conjugalidade da parentalidade. Para cumprir com tal objetivo, não raras vezes, os progenitores podem e devem beneficiar de intervenção psicológica especializada. O psicólogo poderá atuar como facilitador do diálogo, promovendo a colaboração e a escuta ativa, a antecipação de potenciais dificuldades e de estratégias para as colmatar, bem como providenciar apoio psicológico à criança e/ou aos pais. Apoio psicológico que poderá trabalhar questões como:
  • Aumentar a consciência dos pais acerca da relevância da coparentalidade para o bem-estar da criança;
  • Treino de competências, para promover a colaboração em detrimento de tentativas infundadas de sabotar as práticas parentais do outro;
  • Desafio da comunicação, na medida em que constitui a principal via para a coparentalidade, como forma de manter o bem-estar e a sensação de segurança da criança, assim como fazê-la sentir livre para manter uma relação de proximidade emocional com ambos os pais. A comunicação frequente com o outro progenitor facilita a sensação de estar presente na vida dos filhos e não, somente, a meio termo;
O estabelecimento de uma relação de coparentalidade positiva depende de um comprometimento ativo por ambos os pais, os quais devem confiar nas capacidades um do outro para cuidar da criança. A confiança no outro para cuidar tem vindo a ser identificada como um fator de elevada importância para a coparentalidade. Quando estes desafios não são superados pelos adultos, o resultado é claro: as crianças sofrem consequências a vários níveis. Existem assim três palavras-chave que contribuem para uma coparentalidade eficaz, positiva, são elas: confiança, comunicação e respeito.

Proposta de filmes: Captain Fantastic (2016) e Moana (2016)
Proposta de livros: Casa da Mãe, Casa do Pai: Um Guia para pais Separados, Divorciados ou que Voltaram a Casar de Isolina Ricci (2004) e Quando os Pais se Separam...Para Melhor Lidar com a Crise e Ajudar a Criança de Richard Cloutier e Lorraine Filion (2006)

Bibliografia
Augustin, D., & Frizzo, G. B. (2015). A Coparentalidade ao Longo do Desenvolvimento dos Filhos: Estabilidade e Mudança no 1º e 6º Ano de Vida. 19(1), 13-24. Curitiba: Interação em Psicologia.
Paulino, M., Varandas, S., & Borges, I. M. (26 de outubro de 2020). Como deve ser a vida das crianças após um divórcio? Obtido de Crianças a torto e a Direitos: https://criancasatortoeadireitos.wordpress.com/tag/coparentalidade-positiva/

terça-feira, 18 de março de 2025

Vamos falar de Alienação Parental


A participação da mãe e do pai na vida d@s filh@s é imprescindível para o regular desenvolvimento deles/delas. No entanto, após o término do relacionamento, algumas mães ou pais, usam-n@s para atingir o/a ex-parceiro/a, visando excluí-lo/a da vida d@s filh@s.

Compete aos pais, com a responsabilidade que lhes é exigida, separar a conjugalidade da parentalidade, pois estes são o guia para o desenvolvimento saudável d@ filh@.

As ruturas conjugais e, concretamente o divórcio, são fenómenos cada vez mais prevalentes na sociedade atual. O divórcio é um processo que pode causar uma crise familiar no ciclo de vida. Nem sempre é fácil de gerir e nem sempre é aceite pelo casal da mesma forma, daí que o processo de separação ou divórcio pode desencadear em todos ou parte dos membros da família dificuldades como sendo adaptação à nova forma de vida. Um processo de divórcio traz muitas alterações na estrutura familiar, nomeadamente para as crianças ou jovens que acontecem ao nível emocional, nas rotinas diárias, nos estilos de vida e nos próprios comportamentos.

É neste contexto que surge o conceito de Síndrome de Alienação Parental, um conceito bastante recente, que se refere exatamente a estas situações de conflito entre pais. É considerada uma forma de maus-tratos infantis, cuja deteção e abordagem são difíceis já que tudo se passa entre quatro paredes.

O conceito de Síndrome de Alienação Parental, doravante designada SAP, surgiu nos EUA, em 1985, por Richard Gardner, professor de psiquiatria clínica no Departamento de Psiquiatria Infantil da Universidade de Columbia, tendo nessa qualidade publicado diversos artigos sobre o tema, nos quais deu a conhecer toda a sua teoria.

Gardner descreveu a SAP como sendo um distúrbio que afeta crianças envolvidas, na maioria dos casos, em contextos de divórcio ou separação e nos quais se disputa a guarda das mesmas. Nestes casos a criança recusa-se a estar com um dos progenitores sem que haja motivo aparente que o justifique.

É necessário relatar que a expressão Síndrome da Alienação Parental (SAP) é arduamente recriminada, por não estar prevista nem na Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento encontrados na Classificação Internacional de Doenças (CID – 10), nem no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), ou seja, não é conhecida como uma categoria diagnosticada e também não é considerada uma síndrome médica. Não se trata de uma doença, mas existe como fenómeno social. Esta interferência na formação psicológica d@ menor constitui abuso moral e é qualificável como maus-tratos.

Segundo Sá e Silva, a SAP consiste na “manipulação psicológica d@s filh@s, com o intuito de provocar nestes, sentimentos de rejeição, de imputar culpas ou de provocar, de qualquer forma, uma trajetória de desmoralização desse mesmo progenitor” (2011, p,10). 

Neste sentido, Gardner enuncia oito indícios primários que ajudarão a perceber se estamos perante uma “criança alienada”, são eles: 

  • Campanha com o objetivo de denegrir a imagem do progenitor aos olhos da criança;
  • Racionalizações fracas, frívolas ou absurdas para a depreciação do progenitor supostamente alienado;
  • Falta de ambivalência: no caso da “criança alienada” esta associa tudo que é mau ao progenitor alienado e tudo que é bom ao progenitor alienante;
  • Fenómeno do “pensador independente”: a criança afirma que a sua rejeição progressiva do progenitor alienado, parte única e exclusivamente de si, sem interferência de terceiros;
  • Apoio ao progenitor alienador no contexto do conflito parental;
  • Ausência de culpa ao denegrir e ou exploração do ódio parental;
  • Presença de cenários “emprestados” ou encenados;
  • Propagação da animosidade aos amigos e família do progenitor alienado.

Outros exemplos são:

  • Recusa de passar as chamadas telefónicas aos/às filh@s;
  • Organizar várias atividades com @s filh@s durante o período em que o outro genitor deve normalmente exercer o direito de visitas;
  • Apresentar o novo cônjuge aos/às filh@s como a sua nova mãe ou o seu novo pai;
    Intercetar as coisas dadas aos
  • Intercetar as coisas dadas aos/às filh@s;
    Desvalorizar e insultar o outro na presença d@s filh@s;
    Recusar informações sobre as atividades em que @s filh@s estão envolvidos;
    Falar de maneira descortês do novo cônjuge do outro;
    Impedir o outro de exercer o seu direito de visita;
    “Esquecer” de avisar de compromissos importantes;
    Envolver pessoas próximas na ‘lavagem cerebral’ d@s filh@s;
    Tomar decisões importantes a respeito d@s filh@s sem consultar o outro;
    Trocar (ou tentar trocar) nomes e sobrenomes;
    Impedir o outro de ter acesso às informações escolares e/ou médicas d@s filh@s;
    Sair de férias sem @s filh@s e deixá-l@s com outras pessoas, ainda que o outro esteja disponível e queira ocupar-se d@s filh@s;
    Falar aos
  • Desvalorizar e insultar o outro na presença d@s filh@s;
  • Recusar informações sobre as atividades em que @s filh@s estão envolvidos;
  • Falar de maneira descortês do novo cônjuge do outro;
  • Impedir o outro de exercer o seu direito de visita;
  • “Esquecer” de avisar de compromissos importantes;
  • Envolver pessoas próximas na ‘lavagem cerebral’ d@s filh@s;
  • Tomar decisões importantes a respeito d@s filh@s sem consultar o outro;
  • Trocar (ou tentar trocar) nomes e sobrenomes;
  • Impedir o outro de ter acesso às informações escolares e/ou médicas d@s filh@s;
  • Sair de férias sem @s filh@s e deixá-l@s com outras pessoas, ainda que o outro esteja disponível e queira ocupar-se d@s filh@s;
  • Falar aos/às filh@s que a roupa que o outro comprou é feia, e proibi-l@s de usá-las;
    Ameaçar punir @s filh@s se telefonarem, escreverem, ou se comunicarem com o outro;
    Culpar o outro pelo mau comportamento d@s filh@s;
    Apresentar falsa denúncia;
    Mudar o domicílio para local distante, sem justificativa, visando dificultar a convivência da criança ou adolescente com o outro, com familiares deste ou com avós.
  • Ameaçar punir @s filh@s se telefonarem, escreverem, ou se comunicarem com o outro;
  • Culpar o outro pelo mau comportamento d@s filh@s;
  • Apresentar falsa denúncia;
  • Mudar o domicílio para local distante, sem justificativa, visando dificultar a convivência da criança ou adolescente com o outro, com familiares deste ou com avós.

Após esta explicitação, o mesmo autor define três tipos de Síndrome de Alienação Parental que poderemos encontrar:

  • Leve ou ligeiro, a alienação é ainda superficial. A criança cumpre o acordado, demonstrando já algum descontentamento e mostrando-se um tanto ao quanto crítica.
  • Moderado, o mais comum, no qual a alienação é notória, em que a criança torna-se mais desrespeitadora, continuando a campanha de difamação.
  • Grave, o contacto entre criança e progenitor torna-se difícil ou mesmo impossível, podendo o menor adotar um comportamento hostil e agressivo.

Em relação às consequências da SAP nas crianças, Gardner considera nocivos os efeitos da mesma, pois entende que levam ao afastamento de um dos progenitores da vida d@ menor, privando-@ do necessário convívio com @ seu/sua progenitor(a). As consequências centram-se especialmente ao nível psicológico e emocional da criança. Ao afetar esses níveis, todo o desenvolvimento acaba por ficar condicionado, visto que dele fazem parte as emoções, as necessidades, os desejos, as deias, contudo, se não podemos exprimir o que necessitamos, se a nossa liberdade está condicionada, se o nosso “eu” deixa de ser nosso para ficarmos submissos às necessidades de uma outra pessoa, no nosso futuro os nossos “passos” e as nossas escolhas tendem a estar dependentes do que os outros querem, daí que se acabe com sonhos, objetivos, alegria e que exista uma fragmentação da própria personalidade. Assim, de uma forma mais específica, as consequências, podem ir desde o nível fisiológico (alimentação, sono, incontinência urinária); nível académico (resultados escolares comprometidos, défices de atenção/concentração); nível social (dificuldades de relacionamento, agressividade, ansiedade) até ao nível psicológico (dificuldade na construção da personalidade e no reconhecimento das próprias qualidades).

@s menores necessitam igualmente do pai e da mãe e nenhum deles pode preencher a função que ao outro cabe. A consciência deste facto é essencial para que o relacionamento d@ menor com os progenitores se processe normalmente, não devendo haver resistências, nem intransigências artificiais. Os progenitores devem interiorizar estes princípios e valores de harmonia familiar, que não se confundem com a harmonia conjugal e nem a pressupõem. Quando o marido e a mulher se separam e se acaba a conjugalidade é importante saber que pai e a mãe, sempre permanecem, isto é, a parentalidade deve ser mantida e preservada. Mesmo que acabe o amor entre o casal, o respeito deve existir, por aquele que se escolheu para ser pai ou mãe d@s filh@s.


Proposta de filmes: Jake's Closet (2007), A Morte Inventada, Documentário (2009) e The Fighter (2010)
Proposta de livros: Alienação Parental de Fernando Silva e Eduardo Sá (2011) e Uma Família Parental, Duas Casas Residência alternada - dinâmicas e práticas sociais de Sofia Marinho e Sónia Vladimira Correia (2017)


Bibliografia:
AlienacaoParental.pt. (2022). Identificar a Alienação Parental. Acedido em: 6 de março de 2023 em:https://www.alienacaoparental.pt/alienacao-parental/11-identificar-a-alienacao-parental
Brito, C. M. (2015). ALIENAÇÃO PARENTAL E FAMÍLIA. Dissertação apresentada no mestrado de Ciências Jurídicas da Universidade Autónoma de Lisboa. Lisboa: UNIVERSIDADE AUTÓNOMA DE LISBOA.
Bufacchi, D. A. (2018). OS RISCOS POTENCIALIZADOS DA ALIENAÇÃO PARENTAL NA MULTIPARENTALIDADE. RJLB(6), 1679-1704.
Cintra, P., Salavessa, M., Pereira, B., Jorge, M., & Vieira, F. (2009). SÍNDROME DE ALIENAÇÃO PARENTAL: REALIDADE MÉDICO-PSICOLÓGICA OU JURÍDICA? JULGAR, 7, 197-205.
Familiar, I. P. (2015). Síndrome da Alienação Parental: Abuso psicológico e mau trato infantil!
Instituto Português Mediação Familiar. (2015). ALIENAÇÃO PARENTAL. Acedido em: 6 de março de 2023 em: https://www.ipmediacaofamiliar.org/alienacao-parental
Marques, T. P. (2020). O que é a alienação parental? Acedido em: 6 de março de 2023 em: https://igualdadeparental.org/profissionais/o-que-e-a-alienacao-parental/
Oliveira, L. C. (2017). Alienação parental: contributos e perspetivas de diferentes profissionais. Trabalho final do Mestrado de Intervenção Psicossocial de Crianças e Jovens em Risco. Escola Superior de Educação de Viseu.
Rocha, V. A., Gonçalves, A. V., Lima, L. D., & Azevedo, A. G. (2015). CARTILHA DO DIVÓRCIO PARA OS PAIS. Conselho Nacional de Justiça. Brasília.
SANTOS, P. A. (2014). Síndrome de Alienação Parental: da realidade médico-psicológica ao problema jurídico. Dissertação apresentada à Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra no âmbito do 2.º Ciclo de Estudos em Direito . Coimbra .
Sottomayor, M. C. (2011). Uma análise crítica da síndrome de alienação parental e os riscos da sua utilização nos tribunais de família. JULGAR(13), 73-107. Coimbra Editora.
Souza, A. B., & Gonçalves, C. M. (2016). SÍNDROME DA ALIENAÇÃO PARENTAL: POSSÍVEIS CONSEQUÊNCIAS PARA O DESENVOLVIMENTO PSICOLÓGICO DA CRIANÇA. Psicologia.pt, 1-28.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Vamos falar de Relações Românticas

 



As relações românticas contribuem para a nossa saúde, felicidade e bem-estar.
Quando existem problemas, conflitos e experiências negativas entre os casais, que estes não conseguem resolver sozinhos, um Psicólogo pode ajudar a identificar a origem desses problemas e conflitos e a decidir que mudanças são necessárias (na relação e no comportamento de cada membro do casal) de modo que amb@s possam ficar satisfeit@s com e na relação.
No fundo, o Psicólogo oferece um "território neutro" no qual o casal pode pensar e comunicar sobre o seu relacionamento de forma mais objetiva, acabando com as culpabilizações e mobilizando o envolvimento efetivo de ambos na resolução adaptativa dos problemas.
As evidências científicas confirmam que um Psicólogo pode ajudar o casal a melhorar as suas interações, o seu padrão de comunicação e de expressão emocional, promovendo mudanças de comportamento positivas nas relações românticas.
As principais características das relações felizes:
  • Comunicação clara
  • Confiança e apoio mútuos
  • Respeito e honestidade
  • Boa vontade para negociar em resolver conflitos
  • Momentos de intimidade frequentes
  • Outras relações com amig@s e familiares
  • Prazer em passar tempo juntos
  • Os casais saudáveis têm 5 interações positivas por cada uma que é negativa
  • Os casais saudáveis falam 5 ou mais horas por semana
Como cultivar, todos os dias, uma relação romântica saudável?
  • Elogiar, agradecer e pedir desculpa
  • Aceitar as diferenças e não esperar que @ outr@ realize todas as nossas expectativas e desejos
  • Manter a relação interessante e cultivar interesses comuns
  • Cuidar de si própri@
  • Dizer claramente o que pensa e sente, o que quer e precisa
  • Não esperar que @ outr@ adivinhe ou faça leitura da mente
  • Reservar tempo para falar e discutir outros temas para além d@s filh@s e das tarefas domésticas
  • Ouvir realmente com atenção
  • Olhar um(a) para @ outr@ e não para a televisão, o smartphone ou o computador
  • Arranjar tempo para a intimidade
  • Resolver os conflitos de forma construtiva
  • Escolher a altura certa. Às vezes é preferível afastarem-se e acalmarem-se primeiro
  • Procurar saber como @ outr@ se sente
  • Ouvir o outro ponto de vista e ceder em determinados pontos
  • Discutir um assunto de cada vez e não ir buscar conflitos antigos
  • Mostrar humor e expressar afeto
  • Concordar em discordar
Contudo, nem sempre as relações românticas são felizes, quando:
  • Crítica em demasia
  • Mostrar desprezo
  • Revirar os olhos
  • Agir defensivamente
  • Chamar nomes
  • Desligar da conversa
Nenhum casal é livre de problemas! Os altos e baixos de uma relação são inevitáveis e ultrapassá-los pode ser um desafio! É importante não ignorar os problemas, mas enfrentá-los como uma equipa! Não espere até que uma relação mostre sinais de rutura para a tentar melhorar. Se está constantemente a discutir os mesmos assuntos sem chegar a uma solução ou se sente infeliz com a sua relação romântica, um psicólogo pode ajudar. Encontre um aqui: encontreumasaida.pt.
Quase, quase a concluir esta temática não poderia deixar de abordar as relações românticas abusivas e violentas. Neste sentido, deixo-vos quais os sinais de alerta:
  • Tentar controlá-l@ (por exemplo, dizer-lhe o que pode ou não vestir, impedi-l@ de sair, tirar-lhe o seu dinheiro ou as chaves do carro/casa e pedir justificações sobre o que faz e onde vai)
  • Tentar fazê-l@ sentir-se mal, inútil, sem valor
  • Criticar @s seus/suas amig@s e ser possessiv@ e ciument@
  • Ter medo do temperamento e do humor d@ seu/sua companheir@
  • Gritar-lhe, empurrá-l@, bater-lhe, dar-lhe murros ou atirar-lhe objetos
  • Ameaçar magoá-l@ ou magoar a sua família e animais
  • Forçá-l@ a ter relações sexuais.
Se identifica alguns desses sinais na sua relação romântica, saiba que ninguém merece sentir-se desrespeitad@, infeliz e com medo numa relação. Procure ajuda.

Proposta de filmes: Call Me by Your Name (2017) e The Idea of You (2024)
Proposta de livros: A Culpa é das Estrelas de John Green (2012) e Foi sem Querer que te Quis de Raul Minh'Alma (2018)

Bibliografia
Texto retirado na íntegra no website https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/noticia/1346, publicado a 14 de fevereiro de 2015.

 


terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Vamos falar de Solidão

 


A solidão é um sentimento com o qual todos nós já nos deparámos ao longo da vida. Este sentimento negativo pode ser útil, pois motiva a renovação das ligações sociais. A solidão pode ser encarada, deste modo, como um constructo biológico semelhante aos estímulos desagradáveis como a sede ou a dor física que são essenciais para se recuperar o equilíbrio homeostático e, no caso da solidão, a homeostasia social.
Constata-se que muitas pessoas se sentem sós e abandonadas quer pela sociedade, quer pelas instituições, quer ainda por aqueles que lhes são próximos, como é o caso da família. A solidão pode ainda resultar de fatores situacionais e de características pessoais, como cada um de nós encara as diversas situações problemáticas da vida e como se lida com as adversidades do quotidiano, vai fazer com que nos sintamos mais ou menos sós permitindo que a solidão nos atinja com maior ou menor intensidade.
A solidão é um problema prevalente e crescente. O aumento nas últimas décadas do isolamento e da solidão poderá dever-se ao envelhecimento populacional, ao aumento das taxas de divórcio, à maior mobilidade geográfica e à diminuição progressiva das dimensões das famílias. Vivemos rodeados de pessoas, mas não necessitamos apenas da presença de outros; carecemos também da presença de pessoas que nos valorizem, em quem possamos confiar, com quem possamos comunicar, planear e trabalhar em conjunto. As relações sociais, em quantidade, mas especialmente em qualidade, são importantes para manter o bem-estar físico e mental ao longo da vida.
A experiência da solidão é diferente para cada um de nós, mas todos já a sentimos e geralmente é algo desagradável que nos faz desejar contato social com os outros e intimidade. Os sentimentos de solidão instalam-se quando existe uma discrepância entre o que desejamos e o que realmente obtemos das relações sociais. A solidão é diferente do isolamento social que acontece quando há falta de contatos sociais e as pessoas estão fisicamente afastadas das suas ligações sociais. A solidão é um sentimento subjetivo e relaciona-se com ausência de contacto, de sentimento de pertença ou com a sensação de se estar isolado. Por outro lado, o sentimento de solidão pode interferir com a qualidade de vida das pessoas. Podemos ter muitos contactos sociais e mesmo assim sentirmo-nos sós, especialmente quando não nos sentimos compreendidos ou apoiados pelas pessoas que estão à nossa volta. Todos e todas precisamos uns dos outros para sobreviver, independentemente do nosso género, idade, cultura ou estatuto socioeconómico. As relações interpessoais são cruciais ao nosso desenvolvimento e à nossa saúde.
As pessoas em situação de solidão são aquelas que sentem que as relações com os seus amigos ou colegas estão aquém do que desejariam (solidão social), ou aquelas que não têm um relacionamento de intimidade ou um vínculo emocional próximo, como um melhor amigo (solidão emocional).
O indivíduo que se sente sozinho perceciona as relações sociais como insuficientes ou de baixa qualidade, tendo em conta as suas preferências de envolvimento social. Por conseguinte, é necessário considerar que existem pessoas que têm preferência por passar mais tempo sozinhas e ter uma rede social mais reduzida (isolamento ativo), sem implicar propriamente que se sintam sozinhas. Pessoas mais introvertidas têm preferência por baixos níveis de envolvimento social. Já a solidão implica uma discrepância entre as preferências pessoais de envolvimento social e a rede social que o indivíduo possui, isto é, isolamento passivo.
Existem fatores que se podem constituir de proteção e de risco à solidão. Deste modo, como fatores protetores temos o casamento, a educação superior e o maior rendimento económico. Já como fatores de risco podemos referir os contactos pouco frequentes com amigos e família, uma rede social reduzida, o viver sozinho, a insatisfação com as condições de vida, a incapacidade, o stresse laboral, o conflito familiar ou marital, as relações de baixa qualidade, o divórcio e a viuvez.
Os sentimentos de solidão não constituem, por si só, um problema de saúde mental, mas estão fortemente ligados. Por um lado, ter um problema de saúde mental pode aumentar a probabilidade de nos sentirmos sós. Por outro lado, sentirmo-nos sós pode ter um impacto negativo na nossa saúde mental. Por exemplo, aumentar o risco de depressão, ansiedade e stresse, problemas de autoestima ou sono. Quando a pessoa se sente só, já se está a falar de sofrimento psicológico e isto fragiliza-nos em termos mentais. Não é de admirar que nos fragilize. Quer queiramos quer não, nós somos um animal de relação.
Para a maior parte das pessoas, os sentimentos de solidão são transitórios e situacionais, sem consequências negativas duradouras. No entanto, quando a experiência de solidão se torna crónica, pode ameaçar a nossa saúde física e mental. Alguns fatores aumentam a nossa vulnerabilidade à solidão, como por exemplo, as situações de pobreza, a falta de acesso a transportes, as desigualdades sociais, viver numa habitação arrendada ou em condições, pertencer a uma família monoparental ou a uma minoria, ser cuidador informal ou estar desempregado, e também alguns acontecimentos da vida, como estar a viver uma separação, um divórcio, um processo de luto, uma doença, a emigração ou a transição para a reforma. E o Natal ou outros momentos festivos, ao contrário de melhorarem sempre esta situação, podem por vezes gerar ou agravar estes sentimentos de solidão.
Quando falamos dos impactos tem a solidão, devemos salientar uma menor saúde física e mental e diminuição da esperança média de vida de forma equivalente a fumarmos 15 cigarros por dia. O risco acrescido de mortalidade é ainda comparável a fatores como a inatividade física e obesidade. Além do impacto que tem saúde mental, a solidão também está associada a doenças cardiovasculares, dor crónica, défices no funcionamento do sistema imunitário, hipertensão arterial, aumento dos níveis de colesterol, declínio cognitivo e demência ou abuso de substâncias.
A solidão é uma experiência comum e um sentimento que pode e que podemos mudar, mas não existe uma receita mágica que funcione de forma igual com todas as pessoas. Vale experimentar aquilo com que nos sentimos mais confortáveis, sem nos pressionarmos a fazer algo que não julgamos possível neste momento. Deste modo, enumero algumas dicas:
  • Passear;
  • Iniciar contatos;
  • Conhecer pessoas novas;
  • Não fazer comparações.
  • Aproveitar o tempo que passamos sozinhos.
  • Desenvolvermos um hobby, aprender uma competência nova, ler um livro, ouvir música ou estar em contato com a natureza;
  • Investir no nosso autocuidado. Dormir bem, alimentação saudável, atividade física e atividades de lazer.
  • Pedir ajuda de um psicólogo ou uma psicóloga, e que nos pode ajudar a compreender os nossos sentimentos de solidão e a desenvolver estratégias saudáveis.

Proposta de filmes: Mary and Max (2009) e Her (2014)
Proposta de livros: O Fim da Solidão de Benedict Wells (2019) e Um Cão no Meio do Caminho de Isabela Figueiredo (2022)

Bibliografia
Biblioteca de Literacia em Saúde. (2022). A solidão e o isolamento social. Obtido de https://www.sns24.gov.pt/guia/a-solidao-e-o-isolamento-social/
Marques, D. M. (2020). Solidão em Tempos de COVID. Dissertação Apresentada ao ISMT para a obtenção do Grau de Mestre em Psicologia Clínica. Coimbra : Instituto Superior Miguel Torga.
Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2022). Solidão.
Pinheiro, Â. d., & Tamayo, Á. (jan/jun de 1984). Conceituação e definição de solidão. Fortaleza: Revista de psicologia, 2(1), pp. 29-37.
Rodrigues, R. M. (2018). Solidão, um fator de risco. (34).