A palavra comunicar provem do étimo latino “communicare” que significa pôr em comum, estar em relação, partilhar. Assim, a comunicação é um aspeto essencial e inerente à existência humana. Passamos grande parte do nosso tempo a comunicar e tudo o que fazemos, cada gesto, cada olhar, é uma forma de comunicação. Cada um de nós tem um estilo de comunicação próprio que pode variar conforme as circunstâncias.
A nossa forma de comunicar é, de uma forma simples, a maneira como nos expressamos, como expressamos os nossos sentimentos e as nossas necessidades e como transmitimos uma mensagem aos outros. Podemos adotar diferentes estilos de comunicação, mediante: a forma como defendemos a nossa perspetiva e opinião; a maneira como conseguimos transmitir claramente a nossa mensagem; a forma como consideramos e respeitamos a posição do outro; a nossa capacidade de colaborar com o outro; a nossa capacidade de ouvir e compreender. Neste seguimento, podemos identificar quatro estilos distintos de comunicação principais, constituídos por um conjunto de características distintivas.
- Comunicação agressiva, consiste em dizermos tudo aquilo que pensamos sem termos em conta a opinião do outro, expressar as nossas necessidades ou opiniões de uma forma reivindicativa e até hostil, impondo o nosso ponto de vista e tendo o foco nos objetivos próprios e desvalorização dos interesses do outro. As respostas agressivas incluem falar alto, interromper o outro ou fazer perguntas antes de ele acabar de responder, usar demasiado o “eu”, vangloriar-se, expressar opiniões como se estas fossem factos, acusar ou culpabilizar o outro. São pessoas vistas pelos outros como coercivos, hostis, intransigentes e com dificuldades de autocontrolo.
- Comunicação passiva, caracteriza-se por deixar que seja o outro a dominar a comunicação. Há uma tendência a não revelar aquilo que pensamos e em dizermos aquilo o que os outros querem ouvir ou não dizermos nada e não fazermos valer o nosso ponto de vista. Há a dificuldade em dizer que não. Algumas frases que se podem inserir neste estilo de comunicação são “não vale a pena, não se ganha nada com isto”, “tudo bem, fazemos como tu queres”, “não interessa o que eu penso”. As respostas passivas podem incluir hesitações, evitar determinados assuntos, expressar ansiedade, frases longas e desconexas, excesso de justificações, pedidos de desculpa frequentes ou excessivos, expressões de autodepreciação e expressões que mostram uma anulação das próprias necessidades. O objetivo é o de agradar os outros e evitar o conflito e a discórdia a todo o custo.
- Comunicação manipuladora, a pessoa usa discursos diferentes conforme as pessoas a quem se dirige. Há uma utilização do outro para atingir os fins ou os objetivos, sem, no entanto, o deixar transparecer. A comunicação é um meio para atingir um fim e não ocorre de forma colaborativa. A pessoa com um estilo de comunicação manipulador tende a ser crítica, tanto consigo mesma como com os outros, apresentando uma dificuldade clara em assumir os seus erros e responsabilidades. Algumas frases que se podem inserir no estilo manipulador são “longe de mim tal ideia”, “só te digo isto a ti” … Pode assumir a forma de sarcasmo, chantagem ou insinuação.
- Comunicação assertiva, caracteriza-se por mostramos por palavras e gestos o que realmente queremos, pensamos ou sentimos, enquanto incentivamos o outro a mostrá-lo também. Quando somos assertivos, conseguimos afirmar a nossa posição sem, no entanto, desrespeitar ou invalidar a posição do outro; somos capazes de negociar perante um conflito e resolver problemas de forma cooperante. Permite-nos ser mais verdadeiros connosco próprios e com os outros, colocando as situações de forma clara, defendendo os nossos direitos sem violar os dos outros. Passa pela capacidade de dizer “não” sem nos sentirmos mal por isso, uma vez que temos bem estabelecidas as nossas prioridades e somos capazes de as afirmar, ouvindo também o outro lado e pedindo ao outro para explicar aquilo que não compreendemos. No fundo, ser assertivo implica compreender que os outros podem ter uma perspetiva diferente da nossa e uma não tem de anular a outra.
A comunicação pode ser comparada a um comboio na realização do seu percurso. Neste sentido, cada axioma (princípios ou leis consideradas verdadeiras e universais e que governam todas as trocas comunicativas) corresponderia a uma carruagem, dando assim estrutura ao “comboio”. Na comunicação funcional, saudável, a viagem seria bem-sucedida e o destino comunicacional seria alcançado. Quando, por algum motivo, o comboio comunicacional encontra obstáculos no seu percurso, o descarrilamento torna-se inevitável (comunicação disfuncional). Perante este cenário, torna-se necessária a renovação da linha ferroviária, que ao nível da comunicação é estabelecida pela metacomunicação (comunicar sobre a comunicação).
Os axiomas da comunicação são os seguintes:
- É impossível não se comunicar/todo comportamento é comunicativo;
- Toda a comunicação tem um conteúdo e uma relação - a comunicação não só transmite a informação sobre factos, opiniões, sentimentos, experiências (conteúdo), mas, ao mesmo tempo, impõe um comportamento (relação);
- Pontuação da sequência dos factos - diz respeito à interação (ação que ocorre entre duas ou mais pessoas e quando a ação de uma delas provoca uma reação da outra ou das restantes) – troca de mensagens – entre os comunicantes
- Comunicação digital (O que é dito. Sempre que se usa uma palavra para denominar alguma coisa) e analógica (Maneira como se diz. Toda a comunicação não verbal – postura, movimentos corporais, gestos, expressão facial, tom de voz, ritmo e cadência das palavras)
- Simetria (os parceiros tendem a ter o comportamento um do outro. É caraterizada pela igualdade e pela minimização da diferença, “se és mau para mim, eu também sou mau para ti”) e complementaridade (o comportamento de um parceiro complementa o do outro. Baseia-se na maximização das diferenças. Um é dominador e o outro submisso) nas interações.
Para concluir este artigo, deixo-vos uma frase que considero muito curiosa e reflexiva acerca da comunicação: “Comunicação é muito mais sobre o que foi entendido, do que sobre o que foi dito.” Marcelo Scistowicz
Proposta de filmes: Arrival (2016) e The King's Speech (2011)
Proposta de livros: TODOS SE COMUNICAM, POUCOS SE CONECTAM de John C. Maxwell (2015) e O Livro da Comunicação de Mikael Krogerus e Roman Tschäppeler; Tradução: Alexandra Cardoso (2021)
Bibliografia
Alarcão, M. (2002). (Des)equilíbrios familiares: uma visão sistémica. 2ª ed. Coimbra: Quarteto Editora. (Cap. 3).
Andolfi, M. (1981). A terapia familiar. Editorial Vega.
Gomes, Paula Francisca Costa (2001). A Relação Família-Jardim de Infância: Uma Abordagem Sistémica: Estudo Exploratório. Dissertação de Mestrado em Ciências da Educação, especialização em Psicologia da Educação pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.
Gulotta, Gugliemo. (1976). Commedie et Drammi nel Matrimónio: Psicologia e Fumetti per Districarsi nella Giungla Conjugale. [trad. Comédies et Drames du Mariage: Psycho-Guide Illustré de la Jungle Conjugale. Les Éditions ESF (cap. 7)].
Miermont, J. & cols. (1994). Dicionário de Terapias Familiares: teoria e prática. Porto Alegre: Artes Médicas.
Pereira, D. (9 de setembro de 2022). Estilos de comunicação: tudo o que precisa de saber. Obtido de trabalhador.pt: https://trabalhador.pt/estilos-de-comunicacao-tudo-o-que-precisa-de-saber/
Watzlawick, P., Bavelas, J. B., Jackson, D. D. (1967). Pragmatics of Human Communication: a study of international patterns, pathologies, and paradoxes. [trad. Pragmática da comunicação humana: um estudo dos padrões, patologias e paradoxos de interação. São Paulo: Editora Cultrix (Cap. 1, 2, 3 e 6)].
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Gomes, Paula Francisca Costa (2001). A Relação Família-Jardim de Infância: Uma Abordagem Sistémica: Estudo Exploratório. Dissertação de Mestrado em Ciências da Educação, especialização em Psicologia da Educação pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.
Gulotta, Gugliemo. (1976). Commedie et Drammi nel Matrimónio: Psicologia e Fumetti per Districarsi nella Giungla Conjugale. [trad. Comédies et Drames du Mariage: Psycho-Guide Illustré de la Jungle Conjugale. Les Éditions ESF (cap. 7)].
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