A solidão é um sentimento com o qual todos nós já nos deparámos ao longo da vida. Este sentimento negativo pode ser útil, pois motiva a renovação das ligações sociais. A solidão pode ser encarada, deste modo, como um constructo biológico semelhante aos estímulos desagradáveis como a sede ou a dor física que são essenciais para se recuperar o equilíbrio homeostático e, no caso da solidão, a homeostasia social.
Constata-se que muitas pessoas se sentem sós e abandonadas quer pela sociedade, quer pelas instituições, quer ainda por aqueles que lhes são próximos, como é o caso da família. A solidão pode ainda resultar de fatores situacionais e de características pessoais, como cada um de nós encara as diversas situações problemáticas da vida e como se lida com as adversidades do quotidiano, vai fazer com que nos sintamos mais ou menos sós permitindo que a solidão nos atinja com maior ou menor intensidade.
A solidão é um problema prevalente e crescente. O aumento nas últimas décadas do isolamento e da solidão poderá dever-se ao envelhecimento populacional, ao aumento das taxas de divórcio, à maior mobilidade geográfica e à diminuição progressiva das dimensões das famílias. Vivemos rodeados de pessoas, mas não necessitamos apenas da presença de outros; carecemos também da presença de pessoas que nos valorizem, em quem possamos confiar, com quem possamos comunicar, planear e trabalhar em conjunto. As relações sociais, em quantidade, mas especialmente em qualidade, são importantes para manter o bem-estar físico e mental ao longo da vida.
A experiência da solidão é diferente para cada um de nós, mas todos já a sentimos e geralmente é algo desagradável que nos faz desejar contato social com os outros e intimidade. Os sentimentos de solidão instalam-se quando existe uma discrepância entre o que desejamos e o que realmente obtemos das relações sociais. A solidão é diferente do isolamento social que acontece quando há falta de contatos sociais e as pessoas estão fisicamente afastadas das suas ligações sociais. A solidão é um sentimento subjetivo e relaciona-se com ausência de contacto, de sentimento de pertença ou com a sensação de se estar isolado. Por outro lado, o sentimento de solidão pode interferir com a qualidade de vida das pessoas. Podemos ter muitos contactos sociais e mesmo assim sentirmo-nos sós, especialmente quando não nos sentimos compreendidos ou apoiados pelas pessoas que estão à nossa volta. Todos e todas precisamos uns dos outros para sobreviver, independentemente do nosso género, idade, cultura ou estatuto socioeconómico. As relações interpessoais são cruciais ao nosso desenvolvimento e à nossa saúde.
As pessoas em situação de solidão são aquelas que sentem que as relações com os seus amigos ou colegas estão aquém do que desejariam (solidão social), ou aquelas que não têm um relacionamento de intimidade ou um vínculo emocional próximo, como um melhor amigo (solidão emocional).
O indivíduo que se sente sozinho perceciona as relações sociais como insuficientes ou de baixa qualidade, tendo em conta as suas preferências de envolvimento social. Por conseguinte, é necessário considerar que existem pessoas que têm preferência por passar mais tempo sozinhas e ter uma rede social mais reduzida (isolamento ativo), sem implicar propriamente que se sintam sozinhas. Pessoas mais introvertidas têm preferência por baixos níveis de envolvimento social. Já a solidão implica uma discrepância entre as preferências pessoais de envolvimento social e a rede social que o indivíduo possui, isto é, isolamento passivo.
Existem fatores que se podem constituir de proteção e de risco à solidão. Deste modo, como fatores protetores temos o casamento, a educação superior e o maior rendimento económico. Já como fatores de risco podemos referir os contactos pouco frequentes com amigos e família, uma rede social reduzida, o viver sozinho, a insatisfação com as condições de vida, a incapacidade, o stresse laboral, o conflito familiar ou marital, as relações de baixa qualidade, o divórcio e a viuvez.
Os sentimentos de solidão não constituem, por si só, um problema de saúde mental, mas estão fortemente ligados. Por um lado, ter um problema de saúde mental pode aumentar a probabilidade de nos sentirmos sós. Por outro lado, sentirmo-nos sós pode ter um impacto negativo na nossa saúde mental. Por exemplo, aumentar o risco de depressão, ansiedade e stresse, problemas de autoestima ou sono. Quando a pessoa se sente só, já se está a falar de sofrimento psicológico e isto fragiliza-nos em termos mentais. Não é de admirar que nos fragilize. Quer queiramos quer não, nós somos um animal de relação.
Para a maior parte das pessoas, os sentimentos de solidão são transitórios e situacionais, sem consequências negativas duradouras. No entanto, quando a experiência de solidão se torna crónica, pode ameaçar a nossa saúde física e mental. Alguns fatores aumentam a nossa vulnerabilidade à solidão, como por exemplo, as situações de pobreza, a falta de acesso a transportes, as desigualdades sociais, viver numa habitação arrendada ou em condições, pertencer a uma família monoparental ou a uma minoria, ser cuidador informal ou estar desempregado, e também alguns acontecimentos da vida, como estar a viver uma separação, um divórcio, um processo de luto, uma doença, a emigração ou a transição para a reforma. E o Natal ou outros momentos festivos, ao contrário de melhorarem sempre esta situação, podem por vezes gerar ou agravar estes sentimentos de solidão.
Quando falamos dos impactos tem a solidão, devemos salientar uma menor saúde física e mental e diminuição da esperança média de vida de forma equivalente a fumarmos 15 cigarros por dia. O risco acrescido de mortalidade é ainda comparável a fatores como a inatividade física e obesidade. Além do impacto que tem saúde mental, a solidão também está associada a doenças cardiovasculares, dor crónica, défices no funcionamento do sistema imunitário, hipertensão arterial, aumento dos níveis de colesterol, declínio cognitivo e demência ou abuso de substâncias.
A solidão é uma experiência comum e um sentimento que pode e que podemos mudar, mas não existe uma receita mágica que funcione de forma igual com todas as pessoas. Vale experimentar aquilo com que nos sentimos mais confortáveis, sem nos pressionarmos a fazer algo que não julgamos possível neste momento. Deste modo, enumero algumas dicas:
- Passear;
- Iniciar contatos;
- Conhecer pessoas novas;
- Não fazer comparações.
- Aproveitar o tempo que passamos sozinhos.
- Desenvolvermos um hobby, aprender uma competência nova, ler um livro, ouvir música ou estar em contato com a natureza;
- Investir no nosso autocuidado. Dormir bem, alimentação saudável, atividade física e atividades de lazer.
- Pedir ajuda de um psicólogo ou uma psicóloga, e que nos pode ajudar a compreender os nossos sentimentos de solidão e a desenvolver estratégias saudáveis.
Proposta de filmes: Mary and Max (2009) e Her (2014)
Proposta de livros: O Fim da Solidão de Benedict Wells (2019) e Um Cão no Meio do Caminho de Isabela Figueiredo (2022)
Bibliografia
Biblioteca de Literacia em Saúde. (2022). A solidão e o isolamento social. Obtido de https://www.sns24.gov.pt/guia/a-solidao-e-o-isolamento-social/
Marques, D. M. (2020). Solidão em Tempos de COVID. Dissertação Apresentada ao ISMT para a obtenção do Grau de Mestre em Psicologia Clínica. Coimbra : Instituto Superior Miguel Torga.
Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2022). Solidão.
Pinheiro, Â. d., & Tamayo, Á. (jan/jun de 1984). Conceituação e definição de solidão. Fortaleza: Revista de psicologia, 2(1), pp. 29-37.
Rodrigues, R. M. (2018). Solidão, um fator de risco. (34).

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