Quando as pessoas vivem muitas perdas, se sentem um fracasso, sobrecarregadas por problemas pessoais ou familiares, ou mesmo sem saber bem por quê, podem ficar presas na sua dor e acreditar que não existem soluções para os seus problemas. Sentem-se impotentes para mudar a sua vida e a ideia de morrer, de suicídio, pode dar-lhes a ilusão de algum conforto e controlo sobre a situação.
Muitas pessoas experienciam vontade de se suicidar e pensamentos suicidas como parte de um problema de Saúde Psicológica ou quando experienciam problemas de saúde física graves e dolorosos. Algumas vezes o suicídio é planeado, mas outras vezes as tentativas de suicídio acontecem por impulso, num momento de desespero.
O suicídio tem sido tradicionalmente um tema tabu na sociedade ocidental, o que levou a uma maior alienação geral. As pessoas que morreram por suicídio e as suas famílias e amig@s sofreram de grande discriminação – por um lado por se julgar o suicídio um pecado e por toda a culpa sentida e que pesava sobre os entes queridos. Ao falarmos sobre este assunto, afastando-o do tabu social, permitimos que as pessoas falem mais sobre os seus pensamentos de suicídio e se sintam mais à vontade para pedir ajuda. Além disso, a sociedade fica também mais preparada para identificar potenciais pessoas em risco. Desta forma, estamos tod@s a contribuir para a prevenção do suicídio.
Ter ideias de suicídio é muitas vezes visto como uma espécie de sentença que marca o indivíduo para sempre. Porém, a ideação suicida não é uma marca ou rótulo, é um sinal de que o indivíduo está a sofrer profundamente e deve procurar ajuda. Todas as ideias pré-concebidas que existem ao redor da temática do suicídio só contribuem para a desinformação e, consequentemente, para a construção do estigma que envolve o suicídio e as doenças mentais. Estas falsas informações podem impedir as pessoas de procurar a ajuda que precisam, colocando-se potencialmente em risco. Desmistificá-las contribui para uma sociedade mais informada, que percebe a importância de ajudar outros a procurarem ajuda e tratamento, que mostra aos indivíduos a importância de enfrentar os problemas de saúde mental.
O suicídio é um problema de Saúde Pública com enormes consequências emocionais, sociais e económicas. Não existe uma explicação simples para o facto de alguém escolher morrer por suicídio e raramente se deve a um único fator. O suicídio é um fenómeno transversal a toda a comunidade. Todos pensamos na morte, isso é natural, a morte faz parte da vivência do ser humano. Não é correto estabelecer relações diretas entre um suicídio e um determinado acontecimento de vida negativo (divorciar-se, ser despedid@, ser diagnosticad@ com uma doença grave, …). Este fenómeno não escolhe classes sociais, género, idade ou região geográfica. O suicídio afeta também a família, @s amig@s, @s profissionais de saúde e até mesmo desconhecid@s, provocando grande sofrimento psicológico, físico e social. O suicídio é a morte de alguém como resultado de um ato intencional para pôr termo à sua própria vida. Está muitas vezes associado à vontade de terminar com o sofrimento ou com a dor que a pessoa sente. Quando alguém põe termo à sua própria vida, dizemos que “morreu por suicídio”. Normalmente é repentino, violento e inesperado.
Podemos estar atentos a alguns sinais que podem indicar que alguém pensa suicidar-se, tais como:
- Ameaçar direta (“vou matar-me”) ou indiretamente (“quem me dera adormecer e nunca mais acordar”) suicidar-se;
- Planos e cartas de despedida (incluindo publicações ‘online’);
- Falar sobre suicídio ou sobre a morte;
- Escrever canções, poemas ou cartas sobre a morte;
- Falar sobre “ir embora”, “não estar mais aqui”, “desaparecer”, “não vou ser um problema para vocês durante muito mais tempo”;
- Referir-se a coisas de que não vai precisar ou dar objetos pessoais;
- Falar sobre sentir-se desesperad@ ou culpad@;
- Afastar-se de amig@s e familiares e perder o interesse em sair de casa;
- Perder o interesse pelas atividades ou passatempos favoritos;
- Ter dificuldade em concentrar-se e em pensar com clareza;
- Perder interesse na escola ou atividades desportivas;
- Irritabilidade, tristeza ou ansiedade;
- Alterações nos hábitos alimentares e de sono;
- Manifestar comportamentos autodestrutivos (beber álcool em excesso, consumir drogas, automutilar-se…);
- Manifestar-se subitamente alegre após um período de tristeza.
Tal como noutras problemáticas de saúde mental, no suicídio existe um conjunto de fatores que podem funcionar como fatores de risco e proteção. Como fatores de risco temos:
- Ser homem;
- Ter mais de 45 anos;
- Ter pensamentos ou planos de suicídio;
- Ter acesso facilitado a meios para se magoar;
- Já ter tentado o suicídio;
- Conhecer alguém que se tenha suicidado;
- Estar isolad@/não ter uma rede de suporte;
- Negligência e abandono familiar;
- Violência doméstica;
- Exposição a ambientes de stresse crónico;
- Abuso sexual;
- História familiar de suicídio;
- Problemas de Saúde Psicológica (como a depressão ou a ansiedade);
- Doenças Mentais - Perturbação bipolar, esquizofrenia e as perturbações de personalidade;
- Acontecimento traumático/Perda recente marcante (morte, divórcio, perda de emprego, término de relação romântica);
- Abuso de substâncias;
- Bullying ou cyberbullying; sentimentos de desespero e desesperança; baixa auto-estima;
- Grande parte das pessoas vão a uma consulta médica nas semanas ou meses que antecedem tentativa de suicídio;
- Ser impulsiv@/ter tendência para agir sem pensar;
- Ser viúv@, divorciad@ ou solteir@;
- Existência de uma doença grave, incapacitante ou dor crónica;
- Não ter esperança no futuro;
- Ter familiares com doença mental;
- Situações de vulnerabilidade (por exemplo, pobreza, desemprego, perdas financeiras, guerra, desastres naturais, discriminação exclusão social e conflitos em torno da identidade sexual).
- Falta de apoio social e sentimentos de solidão.
- Crença de que o suicídio é uma solução “nobre” para um dilema pessoal ou uma “resposta” para problemas graves.
- Exposição ao suicídio (na vida real ou através dos ‘media’ e da ‘internet’, que podem conduzir a comportamentos de imitação, sobretudo se forem divulgados suicídios de figuras públicas).
Como fatores de proteção:
- Envolvimento em atividades positivas;
- Falar sobre as suas preocupações (a pessoa pode sentir-se menos sozinha e assoberbada pelos seus pensamentos), perguntando diretamente sobre automutilação e pensamentos suicidas;
- Rede de apoio social e conexões fortes de familiares, amig@s, colegas de trabalho e outras pessoas significativas;
- Ter sentido de responsabilidade pela família;
- Competências socioemocionais de resolução de problemas, resolução de conflitos e de gestão de dificuldades de forma adaptativa à mudança;
- Ter autoestima, planos para o futuro e satisfação com a vida;
- Ter crenças religiosas, culturais ou morais que desencorajam o suicídio;
- Ter acesso a serviços de saúde;
- Acesso a cuidados de Saúde Psicológica.
- Restrição de acesso a meios letais que permitam o suicídio;
- Procurar ajuda.
Como conclusão, quero salientar que devemos estar atent@s e reconhecer os sinais de alarme de suicídio; levar a sério os pedidos de ajuda; ouvir atentamente e não fazer juízos de valor; perguntar diretamente sobre pensamentos de suicídio e encorajar a procura de ajuda profissional.
O suicídio é uma problemática séria. Uma pessoa suicida-se a cada 40 segundos em todo o mundo, com quase 800.000 mortes em todo o mundo, sendo esta a segunda causa de morte mais frequente entre os jovens dos 15 aos 29 anos. Em Portugal, cerca de três pessoas morrem por suicídio a cada dia.
Proposta de filmes: En Man Som Heter Ove (2015); Canção da Volta (2016) e A Man Called Otto (2023)
Proposta de livros: As Virgens Suicidas de Jeffrey Eugenides (1993) e As Vantagens de Ser Invisível de Stephen Chbosky (2007)
Bibliografia
ESCOLA SAUDÁVELMENTE. (03 de outubro de 2022). Suicídio. Obtido de https://escolasaudavelmente.pt/professores/problemas-de-saude-psicologica/suicidio
Ordem dos Psicólogos. (2021). Vamos falar sobre Suicídio? Lisboa.
Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2018). Suicídio e Ideação Suicida em Estudantes Universitários. Lisboa.
Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2022). Prevenir o Suicídio – O Papel dos Psicólogos e Psicólogas. Lisboa.
PIRES, A. M., GASPAR, J., BARBOSA, P., & SILVA, S. F. (2021). Prevenção do Suicídio — Manual para a Comunidade. Obtido de www.prevenirsuicidio.pt
Serviço Nacional de Saúde. (2022). Prevenção do Suicídio. Obtido de https://prevenirsuicidio.pt/c/mitos/
World Health Organization. (2021). Suicide worldwide in 2019: Global Health Estimates. Geneva
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