sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Vamos falar de Ansiedade


Todas as pessoas já se sentiram ansiosas. A ansiedade é um sentimento que experimentamos de vez em quando, perante situações em que nos sentimos ameaçados ou stressados. A ansiedade pode ser descrita como uma sensação de preocupação, nervosismo, inquietação ou receio do que poderá acontecer. Por exemplo, perante o pensamento de ir fazer um exame, ir ao hospital ou a uma entrevista de emprego, é comum sentirmo-nos tensos, preocupados, nervosos, termos medo de fazer “figura de parvos” ou duvidarmos da nossa capacidade para sermos bem-sucedidos. Estas preocupações podem afetar o nosso sono, apetite e capacidade de concentração. Mas, se tudo correr bem, a ansiedade desaparece. Este tipo de ansiedade até pode ser positiva e útil, porque nos deixa mais alerta e focados.
No entanto, se os sentimentos de ansiedade nos sobrecarregarem, se o nível de ansiedade for elevado durante longos períodos de tempo, o nosso desempenho pode ser afetado e torna-se mais difícil lidar com a nossa vida quotidiana. Podemos sentir que estamos a ficar sem controlo, que vamos morrer ou enlouquecer.
A ansiedade tem efeitos no nosso corpo e na nossa mente. Do ponto de vista físico, podemos experienciar tensão muscular, dor de cabeça, batimento cardíaco acelerado, náuseas e vómitos, vontade de ir à casa de banho, dificuldade em dormir ou sensação de “borboletas no estômago”. Do ponto de vista psicológico, a ansiedade pode tornar-nos mais receosos, alerta, nervosos, irritáveis, incapazes de relaxar e de nos concentrarmos.
A ansiedade pode afetar o nosso pensamento e as nossas relações com os outros. Podemos pensar muito sobre as coisas que nos acontecem, e pensar de forma irracional, mas sem sermos capazes de parar esses pensamentos. O nosso pensamento tende a ser repetitivo e, muitas vezes, negativo. Podemos ter constantemente medo que aconteça o pior e ficar muito pessimistas. Por exemplo, se um amigo se atrasa para um jantar, podemos começar a ficar preocupados se ele terá tido um acidente ou se não quer a nossa companhia, quando afinal esse amigo pode apenas ter perdido o comboio. Podemos começar a evitar determinados locais, situações ou pessoas, passando menos tempo com os nossos amigos.
Portanto, é normal preocuparmo-nos e sentirmo-nos ansiosos de vez em quando, perante determinadas situações desconhecidas ou desafiantes. Mas quando essas preocupações começam a controlar a nossa vida, se passamos muito tempo a sentirmo-nos preocupados e nervosos, temos dificuldade em fazer a nossa vida do dia-a-dia e em sentirmo-nos felizes, podemos ter um problema de Saúde Psicológica, uma perturbação da Ansiedade.
As perturbações da ansiedade são dos problemas de Saúde Psicológica mais comuns e afetam pessoas de todas as idades – adultos, adolescentes e crianças. As pessoas respondem à ansiedade de forma diferente, por isso, quando a ansiedade invade as suas vidas, podem experienciar ataques de pânico sem razão aparente, desenvolver uma fobia de sair de casa, isolar-se da sua família e amigos e ter pensamentos obsessivos ou comportamentos compulsivos, como estar constantemente a lavar as mãos.
Muitas vezes, as pessoas com perturbações da Ansiedade nem sabem bem o que está a causar as preocupações e os receios que têm. Os sintomas de uma perturbação da Ansiedade podem aparecer subitamente ou gradualmente. Podem deixar a pessoa a sentir-se confusa, assustada ou sobrecarregada por todas as pequenas coisas. Podem evitar falar das suas preocupações por medo de não serem compreendidas pelos outros ou serem julgadas de forma injusta (por exemplo, serem consideradas fracas ou “medricas”). Podem sentir-se muito sozinhas.
As perturbações de ansiedade são comuns. Portugal está no top 3 dos países europeus com maior incidência de depressão e ansiedade e é nos mais jovens, entre os 18 e os 34 anos, que há maior incidência. Um em cada 6 portugueses tem um problema de ansiedade e estima-se que 264 milhões de adultos em todo o mundo tenham ansiedade. As perturbações de ansiedade são mais comuns em mulheres do que em homens.

As causas da ansiedade podem ser várias:
  • Biológicas/Genéticas;
  • Psicológicas: algumas pessoas começam a acreditar que os sintomas físicos de ansiedade são sintomas de doença física grave. Isto faz com que se preocupem mais, levando a que os sintomas piorem e, ao sentirem-se pior, preocupam-se mais, num ciclo que se autoalimenta;
  • Ambientais: alguns eventos são tão perturbadores e ameaçadores que a ansiedade que causam pode continuar muito depois do evento, assim como a pressão social para o sucesso e a influência da cultura;
  • Drogas
  • Problemas de saúde mental, como por exemplo a depressão e a perturbação de stress pós-traumático;
  • Problemas físicos: alguns problemas físicos, como as doenças da tiroide, ou tratamentos, como os medicamentos corticoides, podem aumentar a ansiedade.
A boa notícia é que existem intervenções eficazes para reduzir e aprender a gerir a nossa ansiedade. Pedir ajuda é o primeiro passo. Um Psicólogo pode realmente ajudar-nos a sentir bem e aprender estratégias para gerir o stress. Para além de pedir ajuda a um Psicólogo, há outras coisas que podemos fazer e que nos podem ajudar a lidar com a ansiedade. Por exemplo:
  • Praticar desporto ou fazer exercício físico;
  • Envolvermo-nos em atividades e tarefas com objetivo durante grande parte do dia; 
  • Comer e dormir bem;
  • Falar sobre os nossos problemas e sentimentos com alguém em quem confiemos;
  • Recompensarmo-nos a nós próprios quando atingimos um pequeno objetivo;
  • Contar aos familiares e pessoas mais próximas como nos sentimos, para elas saberem o que estamos a passar;
  • Pedir ajuda a um amigo para nos ajudar a sair e a fazer alguma atividade fora de casa;
  • Fazer uma lista de estratégias possíveis para quando nos sentimos ansiosos e usá-las;
  • Concentrando-nos no aqui e agora, nas atividades que estamos a fazer;
  • Identificar os pensamentos que nos estão a perturbar e perguntarmo-nos sobre a probabilidade de isso acontecer;
  • Investir esforços naquilo que se pode controlar;
  • Confiar nas nossas capacidades para lidar com situações difíceis;
  • Fazer o que mais gostamos e nos dá prazer;
  • Ocupar o tempo com o que sempre nos queixamos que não tínhamos tempo para fazer;
  • No final do dia pensar sobre os aspetos positivos desse dia e fazer um plano para o dia seguinte;
  • Criar um espaço e um momento diário de relaxamento;
  • Projetarmo-nos no futuro de forma positiva;
  • Aceitar as situações;

Se a ansiedade @ impedir de funcionar e fazer a sua rotina diária, se sentir que está a ficar sem controlo PEÇA AJUDA, não sofra em silêncio. Contacte um Psicólogo.
Para concluir, há que sublinhar que ao longo da nossa vida iremos viver momentos de incerteza que nos causarão ansiedade. A nossa vida é feita dessas mesmas incertezas. Tomei a decisão certa? Escolhi a altura mais indicada? Este tipo de perguntas e dúvidas acompanham as pequenas e grandes decisões, os momentos mais triviais e os mais significativos da nossa vida. No entanto, em situações de crise, em circunstâncias com resultados imponderáveis e continuadas num período alargado de tempo, os sentimentos de incerteza podem ser mais complexos de gerir, podem comprometer a nossa ação ou paralisar-nos. Assim, devemos aceitar a incerteza e a imprevisibilidade; lembrarmo-nos das vivências de incerteza que correram menos bem e que nos trouxeram aprendizagens; valorizar as rotinas diárias, viver o presente, um dia de cada vez; praticar a vivência da incerteza (8e.g., fazer uma receita sem seguir todos os passos ou alternando ingredientes; dar um passeio sem definir uma trajetória à partida); lembrarmo-nos de situações que tenhamos experienciado e que geraram sentimentos iniciais de incerteza e tiveram, posteriormente, resultados positivos; encontrar um significado para o que está a acontecer e termos como premissa que a ansiedade não nos define. Nós temos ansiedade, não somos ansiedade.

Proposta de filmes: Annie Hall (1977) e Depois a louca sou eu (2021)
Proposta de livros: Não é Loucura é Ansiedade de Sophie Seromenho (2022) e Parar, Pensar, Agir de Juliet Funt (2022)

Bibliografia
American Psychiatnc Association. (2013). DSM-5 - MANUAL DIAGNOSTICO E ESTATÍSTICO DE TRANSTORNOS MENTAIS. (M. I. Nascimento, Trad.) Artmed.
Castro, A. (2021). Sociedade . Obtido de JUP: https://www.juponline.pt/sociedade/artigo/39353/portugal-no-top-3-dos-paises-europeus-com-maior-incidencia-de-depressao-e-ansiedade.aspx
Coêlhoa, N. L., & Tourinhoa, E. Z. (2008). O Conceito de Ansiedade na Análise do Comportamento. Psicologia: Reflexão e Crítica, 21(2), pp. 171-178. Obtido em 25 de agosto de 2022, de http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=18821202
covidografia.pt. (2021). Estatísticas de saúde mental de 2021. Obtido de covidografia.pt: https://covidografia.pt/news/future-male-birth-control
ESCOLA SAUDÁVELMENTE. (1 de setembro de 2022). Ansiedade. Obtido de ESCOLA SAUDÁVELMENTE: https://escolasaudavelmente.pt/escola-saudavelmente
Jokinen, R. R., & Hartshorne, T. S. (2022). Anxiety Disorders: A Biopsychosocial Model and an Adlerian Approach for Conceptualization and Treatment. The Journal of Individual Psychology, 78(2).
Ordem dos Psicólogos Portugueses . (s.d.). FACT SHEET ANSIEDADE.
Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2020). COVID-19 - 3 PASSOS PARA LIDAR COM A ANSIEDADE.
Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2020). COVID-19 - A INCERTEZA FAZ PARTE DA VIDA – COMO LIDAR COM ELA?
Rodrigues, D., Cação, N., Ferreira, S., & Fachada, V. (2007-2008). O Relaxamento. Terapias Cognitivo-Comportamentais em Adultos II. Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.
Soares, S. (2013). Perturbações de Ansiedade. Pós-Graduação em Intervenção Cognitivo-Comportamental. Coimbra: Associação Central de Psicologia.
Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental. (11 de 02 de 2022). Ansiedade. Obtido de SNS 24: https://www.sns24.gov.pt/tema/saude-mental/ansiedade/ 

Sem comentários:

Enviar um comentário