O autoconceito é o conceito que o indivíduo faz de si próprio como um ser físico, social, e espiritual ou moral. É a perceção que um indivíduo tem de si próprio (Gécas, 1982). Desta forma, o autoconceito é um fenómeno íntimo e pessoal (Serra, 1986). Firestone (1987), realça que o autoconceito leva um indivíduo a desenvolver uma espécie de voz interna, um esquema de pensamento, que se liga a sentimentos e atitudes. Esta voz interna influencia os juízos de valor que o ser humano faz a seu respeito e dos outros, das suas capacidades e incapacidades.
O autoconceito engloba a identidade de um indivíduo; permite compreender a continuidade e a coerência do comportamento humano ao longo do tempo; esclarece sobre a forma como uma pessoa interage com as outras e lida com áreas respeitantes às suas necessidades e motivações; leva-nos a perceber aspetos do autocontrolo, porque é que um indivíduo inibe ao desenvolve determinado comportamento ou porque certas emoções surgem em determinados contextos e relaciona-se com certos traços e atitudes de personalidade.
Existem quatro fatores importantes para a formação do autoconceito:
- Modo como o comportamento de um indivíduo é julgado pelos outros - a família - os pais, quer como modelos, quer como fontes de reforços, têm a possibilidade de influenciarem os filhos ao longo de vários anos, não só nos sentimentos a seu próprio respeito como no tipo de pessoa que gostariam de poder ser;
- Feedback que o indivíduo guarda do seu próprio desempenho;
- Comparação que o indivíduo faz entre o seu comportamento e o daqueles que considera os seus pares sociais;
- Julgamento que um ser humano faz ao seu próprio comportamento tendo em conta as regras estabelecidas por um determinado grupo normativo ao qual se encontra vinculado.
Segundo Elfried Löchel (1983), um indivíduo com um bom autoconceito costuma atribuir o êxito a fatores internos (tais como aptidão ao esforço) enquanto o fracasso é atribuído a fatores externos (tais como o acaso). Os indivíduos com um mau autoconceito tendem a atribuir o êxito a fatores externos (com a sorte ou a facilidade da tarefa) tendo a propensão a atribuir o fracasso a causas estáveis como, por exemplo, falta de aptidão. Para Serra (1986), um bom autoconceito ajuda o indivíduo:
- A ter uma perceção positiva de si mesmo;
- A sentir-se bem consigo próprio e com os outros;
- A ter estratégias de coping mais adequadas;
- A perceber o mundo de forma menos ameaçadora e, por conseguinte
- A ter uma melhor saúde mental.
- Seguras, confiantes, com respeito próprio;
- Não precisam de provar aos outros;
- Sentem-se menos ameaçadas pelas tarefas difíceis, pessoas e situações;
- Relacionam-se e trabalham de forma mais efetiva e confortável junto dos outros;
- As suas perceções do mundo da realidade têm menor tendência a serem distorcidas.
Por último, será importante realçar as estratégias que podemos pôr em prática para melhorar o autoconceito, tais como:
- Modificar a nossa forma de encarar diferentes situações para podermos modificar as facetas do nosso autoconceito;
- Reconhecer os pontos fortes e fracos, procurando potenciar e fazer uso dos primeiros, e desenvolver os segundos;
- Registar os aspetos mais importantes da identidade e atualizá-los, de acordo com o espaço psicológico em que de momento nos encontramos;
- Não procurar as causas dos comportamentos apenas nas limitações ou naquilo que não gostamos tanto em nós, procurar antes ver as situações de uma forma mais abrangente e completa, observando também os aspetos e influências externas;
- Não dizer coisas negativas e insensíveis a nosso respeito, como “sou um fracasso”, procurando reformular por frases mais neutras como “desta vez isto não correu como eu queria, para a próxima vou tentar…”;
- Afastarmo-nos de situações ou relações negativas e que nos fazem sentir mal connosco próprios;
- Estabelecer objetivos a curto, médio e longo-prazo para a nossa vida e ir revendo e reestruturando esses objetivos. Criar e dar continuidade aos objetivos ajuda-nos a sentirmo-nos competentes, a ganhar confiança em nós próprios e, com isso, a melhorar o nosso autoconceito. Os objetivos que define devem ser realistas e com probabilidade de poderem ser alcançados;
- Pedir a um amigo próximo para fazer uma lista dos aspetos que gosta em nós e, depois, aprender a aceitar e reconhecer os elogios e a desfrutar dos sentimentos positivos que daí podem advir;
- Apreciar os aspetos positivos das outras pessoas e saber valorizá-los e elogiá-los;
- Recordarmo-nos de todas as pequenas conquistas que já tivemos ou dos obstáculos e desafios que já superamos.
Proposta de livros: Entre Dois Reinos de Suleika Jaouad (2021) e Nunca Fiques Onde Já Não Estás de Manuel Clemente (2022)
Bibliografia
Pereira, D. (9 de setembro de 2022). Autoconceito: o que é, características e desenvolvimento. Obtido de trabalhador.pt: https://trabalhador.pt/autoconceito-o-que-e-caracteristicas-e-desenvolvimento/#Qual_a_relacao_entre_autoconceito_e_autoestima
Serra, A. V. (1986). O "Inventário Clínico de Auto-Conceito". Psiquiatria Clínica, 7(2), pp. 67-84.

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