A família representa um grupo social primário que influencia e é influenciado por outras pessoas e instituições. É formado por pessoas ligadas por descendência a partir de um ancestral comum, matrimónio ou adoção. Dentro de uma família, existe, sempre, algum grau de parentesco. A família é unida por múltiplos laços capazes de manter os membros moralmente, materialmente e reciprocamente durante uma vida e durante as gerações.
Uma família funcional permitirá a realização de duas funções fundamentais: o assegurar da continuidade do ser humano, é nela que o indivíduo nasce, cresce, reproduz-se e morre, num processo contínuo ao longo das gerações, transmitindo vida. Uma segunda função, que decorre desta primeira, consiste na possibilidade de fazer a articulação indivíduo/sociedade, ou seja, torna possível o equilíbrio entre o crescimento e individuação (a nível afetivo, cognitivo e comportamental) e a socialização de cada membro da família.
Segundo Linares (1997), as famílias multiproblemáticas constituem-se como um dos emblemas da Pós-Modernidade, a par de outros fenómenos como a toxicodependência. O conceito despontou no final dos anos 50, no âmbito do trabalho social, e mais tarde no da saúde mental, estando, inicialmente, associado às famílias mais desfavorecidas social e economicamente. Se durante muitos anos, a ciência não manifestou interesse pelo estudo de pessoas consideradas socialmente desfavorecidas, com a Revolução Industrial a situação inverteu-se, devido ao progressivo aumento da inserção dessas pessoas no mercado laboral. Considera-se, então, que a emergência do conceito é contingente às transformações da sociedade industrial: até aí as famílias tinham uma vivência profundamente comunitária, passando, depois, a uma vivência de isolamento e de valorização da vida privada.
Segundo Sharlin e Shamai (2000), este termo foi introduzido por Hoffman para definir famílias com problemas sérios em mais de uma das seguintes áreas: saúde, gestão economia, ajustamento social e necessidades recreativas, dando, dessa forma, maior ênfase a problemas específicos da família do que às suas características. Por outro lado, nos seus primórdios, este conceito identificava famílias de baixo nível socioeconómico, não dando atenção às situações caracterizadas por relações interpessoais e sociais específicas entre os membros da família. Contudo, em trabalhos posteriores, autores como Mazer (1972) ou Thierny (1976), verificaram que estas famílias não se caracterizavam necessariamente por situações de pobreza extrema, mas sim por revelarem dificuldade na gestão dos recursos económicos disponíveis, o que levaria a uma alternância cíclica entre fases de bem-estar e fases de crise.
As famílias multiproblemáticas distinguem-se pela presença de múltiplos problemas de longa duração e forte intensidade, que afetam um número indeterminado de elementos, em simultâneo e/ou em sequência, sendo que os sintomas individuais desempenham um papel secundário face ao sintoma familiar que se relaciona com caos e desorganização.
Cancrini et al. (1997, p. 52) sugere seis critérios na definição de famílias multiproblemáticas: existência simultânea em dois ou mais constituintes da mesma família, de condutas problemáticas estruturadas, constantes no tempo e suficientemente sérias para carecer de uma intervenção externa; grave carência, principalmente por parte dos pais, de exercícios de carácter funcional e afetivo, indispensáveis ao ajustado desenvolvimento da vida familiar; reforço recíproco entre o 1º e o 2º critérios; labilidade das fronteiras, próprio de um sistema determinado pela comparência de profissionais e outros elementos externos que substituem parcialmente os membros incapacitados; estruturação de uma relação crónica de dependência da família relativamente aos serviços externos, provocando a formação de um equilíbrio (relacional) intersistémico; desenvolvimento de comportamentos sintomáticos específicos, como por exemplo a toxicodependência de tipo D (sociopática).
Estas famílias têm as seguintes características:
- Limites difusos;
- Comunicação confusa;
- Relações conflituosas;
- Mulheres como figuras centrais;
- Mães jovens e relações instáveis;
- Instabilidade e indefinição do agregado familiar;
- Problemas de saúde;
- Tragédias e mortes trágicas;
- Baixas qualificações académicas e trabalho infantil;
- Trajetórias profissionais instáveis;
- Elevada mobilidade geográfica;
- Baixos níveis educacionais e a escassez de rendimentos;
- Dificuldade da gestão financeira;
- Problemas habitacionais;
- Problemas ao nível das relações familiares e sociais;
- Instabilidade na estrutura e nas relações;
- Intensidade e facilidade com que o contexto envolvente penetra no sistema familiar;
- Labilidade afetiva;
- Inconstância conjugal leva, muitas vezes, à deteriorização da função parental;
- Subsistema fraternal inconsistente. Frequentemente, constituído por vários filhos provenientes de ligações diferentes, algumas esporádicas, sendo os irmãos mais velhos que, muitas vezes, assumem as tarefas parentais;
- Ideologia familiar próxima da marginalidade;
- Hierarquia do poder comprometida;
- A expressão das emoções reveste-se, frequentemente, de pouca partilha, mas de grande intensidade e pouco controlo, podendo verificar-se uma alternância, ou mesmo ocorrência simultânea, da expressão de emoções opostas;
- O sistema familiar parece apresentar dificuldade em transformar as crises em oportunidades de transformação e crescimento.
Como refere Sousa (2005), “raramente se encontram famílias multiproblemáticas virgens de ligações com os serviços sociais”. A este propósito, Linares (1997), salienta que estas famílias consomem de forma descomedida os serviços sociais, até ao ponto de existir uma relação privilegiada entre ambas as partes, levando a que, frequentemente, seja difícil desligá-las umas das outras. Dessa forma, é possível identificar um laço de dependência centralizado na relação com serviços e profissionais enquanto mediadores do acesso a bens e subsídios, não se convertendo, no entanto, num laço forte ou de dependência com o técnico.
Uma vez que as famílias multiproblemáticas são reconhecidas, maioritariamente, pela existência de problemas, a intervenção é frequentemente desenvolvida a partir de uma perspetiva centrada no défice, focando o que está errado, ausente ou insuficiente, tentando encontrar um técnico competente para resolver os problemas diagnosticados. No entanto, este modelo tem-se revelado ineficaz, resultando na frustração dos profissionais e no desespero ou apatia das famílias, ao não reconhecer que todos os sistemas humanos são autónomos. Por outro lado, a intervenção com famílias multiproblemáticas pobres é frequentemente associada ao fracasso, até porque quando nos deparamos com uma família com diversos problemas torna-se mais difícil definir o sucesso.
Partindo do pressuposto de que todas as famílias e indivíduos são competentes, especialmente ao nível da resolução de problemas, surgiu a abordagem centrada nas forças, segundo a qual os profissionais deveriam aceder e desenvolver as forças das famílias de forma a tornar as suas vidas mais satisfatórias. Esta premissa não implica que os profissionais devam ignorar os problemas familiares, mas sim basear a sua intervenção em objetivos positivos e realistas, em detrimento dos défices.
Segundo Ausloos (2003), todas as famílias apresentam competências e recursos para responder às suas crises evolutivas, constituindo-se como núcleos que diariamente resolvem problemas. Nesse sentido, estas famílias retêm recursos, embora de difícil identificação e valorização pelos elementos externos. De entre as competências identificadas, destaca-se a existência de um forte sentimento de lealdade e de vínculos afetivos entre os seus membros, embora não executem satisfatoriamente as funções parentais, devido aos modelos de referência, também eles instáveis e inseguros. Existem ainda, outros fatores menos frequentes que potenciam a evolução positiva destas famílias, como a existência de emprego fixo em pelo menos um dos elementos, rendimento fixo e razoável, e condições de habitação adequadas.
Proposta de filmes: Kynodontas (2009) e August: Osage County (2013)
Proposta de livros: Os Pais e as Mães de Aldo Naouri (2005) e Não Há Famílias Perfeitas Mulheres, Mães e Desabafos de Marta Gautier (2009)
Bibliografia
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